maíra spanghero


05/05/2011, 3:44 AM
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Hakim, Dindinha e Tchutchuca
05/05/2011, 3:37 AM
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um verbete para Matadouro

1. Um bando. E bastaria essa palavra.

Espécie de agrupamento que utiliza estratégias de resistência, treinamento bélico e camuflagem para definir sua existência em torno de um comum. O palco vira campo de combate. O bando tem um bonito jeito de entender seus membros: singulares e ímpares. Eles possuem um laço denso que os mantêm unidos, muito unidos. O bando é uma reunião de incomuns em função de um comum. É um Cangaço contemporâneo. Outras espécies vivas também formam bandos. E se camuflam. Lutam para sobreviver.

Esse bando é formado por Alexandre Santos, Andrez Lean Ghizze, Cipó Alvarenga, Fábio Crazy da Silva, Fagão, Izabelle Frota, Jaap Lindijer, Jacob Alves, Josh S., Layane Holanda e Marcelo Evelin – embora fique difícil dar nome aos bois durante o espetáculo. Eles usam máscaras: folclore, proteção, disfarce e figurino de guerra. As máscaras identificam (pertencimento a um grupo ou causa), camuflam (metade bicho, metade homem) e preservam as identidades (sabemos que pertencem a algo mas não conhecemos seus rostos). Remetem, indicam, citam, traduzem.

2. Se eu pudesse escolher três palavras para Matadouro, eu escolheria: resistência, resistência e resistência. Porque é isso que o bando faz, sem descanso: resistir, resistir e resistir. Imaginei diferentes soluções visuais da palavra para representar no papel (ou numa tela qualquer) o que Matadouro faz no palco. Uma delas: duas linhas e um círculo feito com a palavra “resistência”. Outra: escrever incansavelmente com máscaras. Mais uma imagem seria a inscrição da palavra “resistência” sobre ela mesma, tantas vezes a ponto de camuflá-la. Ou de furar o papel. É a brecha para despistar (d)o inimigo.

Resistir

(esse intransitivo)

resistindo.

Isso significa, também, verbos no gerúndio (ação em andamento). Dança é quando e depois (Helena Katz). Testando/confiando/construindo, também, (n)a capacidade do público (do outro) em resistir – não desistir. As facas estão afiadas a toda velocidade, a batida tribal revela intenções. Os corpos não sucumbem, não cedem e conservam-se firmes.

O bando corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre. Em círculos.

Fazer o corpo resistir torna o corpo resistente. Torna uma ideia resistente.

3. A resistência tem se manifestado como um traço significativo de uma parte da dança contemporânea brasileira. Matadouro pode até sentir-se só ou sem amigos imediatos mas o bando não está só. Os bandos-irmãos estão correndo por aí, cada qual ao seu modo.

São partes da mesma família: Matadouro (Marcelo Evelin / Demolition Inc. + Núcleo do Dirceu), Pororoca (Lia Rodrigues Companhia de Danças)  e SIM – ações integradas de consentimento para ocupação e resistência (Cena 11 Cia. de Dança). São três danças cuja condição de existência é a ação integrada de um grupo em prol dessa ação integrada de um grupo, sem deixar de ter espaço para expressões singulares individuais. Em todas as três obras não se vê a necessidade de anular diferenças. Um bando é composto por laços que agrupam e por rotas de fuga. Não há necessidade de que todos se vistam com as mesmas roupas e adereços mas que todos vistam a mesma ideia, considerando sua própria anatomia – e que ela fale sobre isso e seja funcional. Isso não é apenas visível nos figurinos, mas também, nos movimentos e gestos, na composição, na coreografia.

Quando assisti Matadouro, no SESC Consolação em São Paulo, senti uma força muito poderosa vinda do bando ao ver a bailarina ______, única mulher do grupo, se sentir cansada (ou será que as pernas lhe doíam? e/ou…? ). O que ela faz? Se retira silenciosamente do círculo grande e forma um menor, dentro do anterior – o que lhe permite um raio menor a percorrer, diminuição de velocidade e proteção do bando. Desse modo, parece que uma outra estratégia para continuar resistindo seria a interrupção espamódica/esporádica do ato de correr com um outro movimento, como dar um mortal.

Essas danças são elas mesmas o próprio ato da resistência – não uma fala ou legenda sobre ela. O assunto não está separado do modo de dizê-lo: seu dizer já é. Isso implica investigar estratégias de coabitação interna (em diferentes níveis), ações de sobrevivência e um entendimento de pertencimento e coletividade em sua prática.

(versão pocket) Eles correm. Correm, correm, correm. Resistem, resistem, resistem. Testam testam testam nossa capacidade de resistir com eles. Eles correm, resistem e precisam de nós. Matadouro – mais um encontro de mãos dadas de Marcelo Evelin com o Núcleo Dirceu (ele mesmo um deles) – é um trabalho sobre resistência. Treinamento militar em tempo real. Tudo é verdade: engajamento, coletividade, camuflagem (recurso de animais e guerrilheiros). A iluminacão, muito bem-feita, é do tipo gambiarra eficiente. Estratégias para resistir: insistir no tempo, no aprimoramento técnico do gesto disciplinado, na alteração por breves períodos (e de forma quase cíclica) o movimento que se estende no tempo. Matadouro tatuou uma marca em mim.



MENINA ISABELA
16/10/2010, 7:37 PM
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não abro mão do que é meu!

 

São Paulo, 16 de outubro de 2010.

Querida Isabela,

Meu nome é Maíra e, diferente de você, já sou uma menina crescida. Pelo menos em alguns aspectos como altura, peso e data de nascimento. Porque em termos de indignação, temos a mesma idade. Afinal, que história é essa de fechar a porta, ainda mais quando não estamos por perto para colocar o pé e impedir? Concordo com você, não é nada legal. O jeito é tentar conversar, desde que a outra parte esteja disposta a ouvir, como foi o seu caso. De qualquer modo, sua estratégia é muito eficiente e corajosa. Vou experimentar agora mesmo: – não fecha a porta! tá? pode ser? tranquilo?

Um beijinho doce,
Maíra



ESSE PROJETO SE AUTO-EXTINGUIRÁ
07/07/2010, 7:23 PM
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ACESSIBILIDADE – ADILSO MACHADO DA SILVA – ALEJANDRO AHMED LAMELA ADÓ – ALINE LUANA BLASIUS – ALLYSON MENDES DO AMARAL – AMÁLIA CHRISTINA MADRUGA DE OLIVEIRA LIMA – ANA PAULA BEBER KAMOZAKA – ANA TEIXEIRA – BIBA FONSECA – CAROLINA CAMPOS – CLARISSA RÊGO TEIXEIRA – CLÁUDIA RESEM PAIXÃO – DANÇA – EXTINÇÃO – FABIANA DULTRA BRITO – FERNANDA VINHAS – GABRIELA GONÇALVES – GRUPO CENA 11 – HEDRA CRISTINE ROCKENBACH – INTERNET – JOSÉ CALIXTO RAMOS NETO – JOSÉ RENATO – JUSSARA BELCHIOR SANTOS – KARIN ELISE SERAFIN – LEONARDO NUNES FONSECA – LIA RODRIGUES CIA DE DANÇA – LIA RODRIGUES DOS SANTOS – LIDIA COSTA LARANGEIRA – LUIZ DAMACENO – MAIRA SPANGHERO – MANIFESTO – MÁRCIA LETÍCIA LAMELA – MARCOS ROBERTO KLANN – MARIANA ROMAGNANI SILVEIRA – NICOLE AUN – PRÊMIO FUNARTE DE DANÇA KLAUSS VIANNA – PRISCILA DE AZEVEDO MAIA – PÚBLICO – RESIDÊNCIA – ROBSON MARTINS – RODRIGO GONTIJO – SESC PINHEIROS – THAÍS GALLIAC RIBEIRO DA SILVA – VANESSA LOPES – VÍDEO – VOLMIR GIONEI CORDEIRO

um ataque de grupo. uma coisa mais ou menos democrática. um mínimo de estabilidade. as paredes não estão aparecendo. eles estão sem calçados? codependência. ação de sobrevivência. não ferir o outro. ações coletivas. capacidade de ação. propaganda do quê? contaminação e sabotagem. ineficiência na estratégia. verdade. farsa. idiotização. inutilidade. extrapolar o acesso restrito. falha e não controle. multiplicar a informação.

projeto propaganda se auto-extinguirá no dia 10 de julho de 2010. para assistir as transmissões, acesse http://www.projetopropaganda.com.br
propaganda project will be self-extinguished on July 10, 2010. to watch the broadcasts, visit http://www.projetopropaganda.com.br



PROJETO PROPAGANDA

Transmissão pública ONLINE nos dias 03, 04, 07, 08, 09 e 10/07 às 16h e 18h.
Clique aqui para assistir!

Entre os dias 1o e 11 de julho, acontece em São Paulo, o PROJETO PROPAGANDA. Fruto de uma parceria da Núcleo Corpo Rastreado (produção) com o SESC/SP (co-patrocínio), as companhias de dança contemporânea Lia Rodrigues (RJ) e Cena 11 (SC) e outros profissionais do vídeo, da internet e da dança, o projeto, em seu início, foi contemplado com o Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna 2009. O principal mérito da empreitada é, justamente, a promoção da convivência entre as duas companhias e o investimento na investigação, algo raro no atual sistema de produção cultural que vivemos no Brasil. Esse espaço dedicado ao “estar junto”, ao “prestar atenção no como fazer” e à “criação de estratégias de ação coletiva”, entre outras características, se apresenta como um campo fértil de experiências (e não de comprovações). A propaganda, nesse projeto, acontece quando se afeta o corpo do outro.

Um dos desafios envolvidos no “estar junto” é a criação do “comum”. Embora as duas companhias tenham modos de trabalhar que diferem substancialmente, é possível observar ideias artísticas, preocupações e dificuldades similares entre elas. Essas descobertas estão se dando nesse convívio que envolve o exercício da fala e da escuta, das tomadas de decisão, das práticas corporais, das relações do corpo e dança com o vídeo e a internet, entre outras. Nesse sentido, cabe perguntar: quais são os pontos de conexão? Como é tomar decisões onde as escolhas implicam/reverberam em todos? Como criar ética/estéticas artísticas com as duas companhias? Como gerar estratégias coletivas de sobrevivência para a dança contemporânea? Como afetar o público? Como criar diálogos entre os participantes?

PROPAGANDA possui algumas palavras-chave, digo, tags que funcionam como pistas: extinção – dança – residência – manifesto – vídeo – acessibilidade – internet – público.



o dia em que acionei o alarme de incêndio

pressione a bolinha preta

Londres, 16 de janeiro de 2010.

Nossa, tanta coisa aconteceu. Pensei tantas frases que queria escrever. Que intensa vida mental eu tenho! Vou começar por ontem. Encomendei meu duvet (não sei antes ficar em dúvida se deveria ou não comprar um de penas de ganso, já que me imagino ativista dos direitos dos animais…talvez eu não seja lá isso tudo…) e encomendei também um tampão de ouvido tamanho pequeno já que o médio chegou e me incomodou. Estava tão de saco cheio desse barulho da caixa de incêndio desregulada, mas tão de saco cheio que desejei comprar uns três modelos diferentes de tampão de uma só vez! Inclusive daqueles super avançados para bateristas não ficarem surdos, sabe?

O tempo corre rápido e a produção da vida toma um tempo danado! Quase não consigo me concentrar na pesquisa, embora ela esteja sempre nos meus pensamentos. Isso me incomoda, minha dispersão, ao mesmo tempo, que me vejo tão cheia de ideias! Poderia ter trabalhado se não tivesse saído para encontrar o Charles. Levei os regalos para ele. Nos encontramos na lojinha da parte moderna da National Gallery e, claro, não resisti e comprei um livrinho sobre o número de ouro e um guarda-oyster.

Depois fomos no ICA (Institute of Contemporary Arts) e sempre acho meio meia boca as exposições de lá. Ou, acho que não me conecto muito mas gostei de um rato de pelúcia que respirava, deitado no chão, enquanto dormia. Mas o que gosto mesmo é daquela lojinha, que é pequenininha e cheia de livros ótimos, cartões incríveis, DVDs e outras coisinhas mais…comprei outro guarda-oyster, aliás, dois, e uma caneta. Tomamos um drink e fomos andando até o Soho. O Charles ia me levar num restaurante belga, o Belgo, já que eu me mostrei muito animada com o halp pint de Leffe, coisa que nunca tinha visto por aqui. Aliás, só vendem half porque é forte e não dá para beber quente (coisa que os ingleses adoram).

Comemos, bebemos e conversamos bastante. Adoro as histórias dele, adoro! Me lembra o tempo do Mário Fofoca. E ele tem uma memória incrível para detalhes. Tenho vontade de escrever coisas que ele conta. Quem sabe…um dia…

Caminhamos até o metrô Tottenham Court Road e peguei minha northern-line-rumo-south-london para Balham. Chegando em casa, perto das dez e meia, e nauseada com o barulho da fire box, eu tive um ato impulsivo, tipo sem-querer-querendo…pressionei de leve a superfície do alarme e a porra imediatamente disparou um barulho dos infernos!!! Subi as escadas correndo (feito criança) para ninguém descobrir que tinha sido eu. O ruído era ensurdecedor e apitava em todos os flats da casa (são 4 ao todo). Liguei para o Charles e falei baixinho “acho que fiz uma besteira”. Ele respondeu, “fica quieta, apaga a luz, que alguém vai ligar para avisar e alguém virá resolver o problema, se alguém bater na sua porta, atende e diz que a dona não está e que você é prima dela”. Ok.

Me fechei no quarto com meu computador e fui responder email para tentar me distrair do barulho dos infernos. Por que você foi fazer isso, Maíra? Agora nem dormir você vai conseguir e antes, com o chato do pi…pi…pi, você – pelo menos – conseguia, né? Ouvi meu vizinho descer escadas, vi a luz acesa e abri minha porta duas vezes na esperança de trocar umas palavrinhas com ele mas não o vi e o barulho era tão alto que não dava para ele me ouvir abrindo a porta (ou precisaria ser atento aos mínimos detalhes, como eu o sou, semiótica por natureza). A porra do alarme soou durante pouco mais de míseras uma hora e quarenta, e eu no computador com os tampões, que pouco adiantavam, além de doerem. Anyway, era melhor com eles do que sem eles.

pi...pi...pi...pi...pi...pi...pi...pi...pi...pi...pi...pi...

Será que nenhum bombeiro forte e bonitão vai aparecer, caramba? Nem aquele carro vermelho, igual ao do Lego e da Praça dos Bombeiros, lá em Floripa?

De vez em quando eu ia na janela olhar e nada. Nada de bombeiro, nada de bonitão e nada do alarme se acalmar. Para falar a verdade, eu já tinha me imaginado várias vezes segurando um martelo e quebrando aquela maldita caixa de incêndio, que nem quando faltou eletricidade e eu quase congelei em pleno inverno londrino, o barulho parou. Realmente, dá mesmo para confiar nas caixas de incêndio produzidas nos países altos, viu, gente? Se você estiver sem luz, sem água quente, sem aquecimento, sem internet, sem aparelho de som, sem TV, sem namorado e seu flat pegar fogo, alguém vai te salvar (talvez não um bombeiro bonitão) porque o alarme vai funcionar!

Cabe registrar que a moçoila aqui já tinha tentado inúmeras formas de resolver o problema. Já tinha ligado para o service number vááárias vezes e nunca ninguém atendeu. Já tinha falado com a vizinha e, na opinião dela, tínhamos que esperar – e olha que o flat dela é mais perto do pipipi. Já tinha falado com a vovozinha querida do flat A, ela recomendou ligar. Estava eu tentando divagar sobre essas coisas quando…

De repente o alarme parou, eu respirei uma vez aliviada e ele voltou. A respiração travou. Depois o alarme parou. Segunda respiração aliviada. Isso aconteceu umas quatro vezes até o ditocujo parar de vez. Ufa! O barulho ensurdecedor, que nem John Cage e Hermeto Pascoal iam gostar, parou. Mas, comecei a ouvir alguma coisa…pi…pi…pi…pi. Não! O pi…pi…pi permaneceu e achei que era um pi…pi…pi diferente – afinal meus sentidos estavam alterados. Não é possível, ninguém merece. Só que, poucos minutos depois, até o pi…pi…pi parou de tocar. Tudo na maior elegância. Nada de gente gritando, nada de fofoqueiros fazendo muvuca na frente da minha moradia, nada de jornalista meia-boca, nada de palavrão e…sem bombeiro bonitão!

Moral da história: por que eu não apertei essa coisa antes?!?

(E agora escrevo com aquele velho e delicioso silêncio de sempre. O silêncio que vou sentir falta, quando estiver em São Paulo. Ô maravilha!)

Do diário “As Aventuras de MSF nos países altos e baixos”.