maíra spanghero


Vida de motorista
05/03/2012, 2:36 PM
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Depois de 41 anos andando no colo, de velocípede, bicicleta, carona, trem, ônibus, metrô e taxi, agora eu “ando” de carro há um mês. Sinto que minha vida, digamos assim, melhorou. Ao menos essa parte administrativa do dia-a-dia – supermercado, cabeleireiro, restaurante, farmácia, praia – facilitou muito. A vida moderna das cidades, com seus shoppings, estacionamentos e ruas, é feita para os carros. Por um lado me sinto mais segura do que andando a pé, por outro os riscos e perigos do trânsito soteropolitano talvez até me deixem menos segura do que eu penso. Notei que estava pegando o carro até para ir até o posto de gasolina, pouco mais de uma quadra para baixo da minha rua, tomar café e comer pão de queijo no 24 horas deles. Primeiro, considerei meio absurdo e sedentário. Depois, fui me dando conta de que, ao caminhar essa trecho, como tantas e tantas e tantas vezes eu fiz ao longo deste um ano que moro aqui, eu encontro calçadas: destruídas, com carros estacionados, cocô de cachorro e lixo. Chegando ao fim da minha rua, para atravessar a Rua Oswaldo Cruz de uma margem para outra, é preciso andar até a sinaleira e esperar eternos 10 minutos. Dependendo do horário, o que significa o dia todo em Salvador, o sol e o calor são insuportáveis. Não há árvores ao longo do trecho, apenas uma do lado direito. Foi assim que me dei conta de que meu corpo sabe que é muito mais agradável ir de carro, no ar condicionado e, se quiser, com som ligado. Mesmo que eu tenha que esperar, é mais confortável. Com isso, cheguei a constatação (óbvia) de que todas minhas tentativas de ser uma pedestre nessa cidade (e não estou falando de pegar o carro para ir caminhar num curto trecho da orla, nas imediações da Amaralina até _____, onde tem estradinha para pedestre e bicicleta) eram tão incômodas – que perdia mais a vontade a cada tentativa. É fato: as cidades não tem mais espaço para os caminhantes e sim para os automóveis. Tudo é mais fácil de carro. Até ficar presa no engarrafamento é mais legal se você está de carro, principalmente, se estiver um calor insuportável. Caso contrário, é possível que você esteja num veículo público sujo, como é o caso de Salvador, e com alguém escutando uma música de gosto duvidoso numa altura descabida. Sempre peguei ônibus para trabalhar, estudar e me divertir. Conheço bem o ritual, os problemas, o custo x benefício, os perigos, o tempo gasto quando se é passageiro. E, como diz a piadinha, tirando o motorista e o cobrador, o resto é tudo passageiro. Andar de ônibus na Europa, pelo menos nos lugares em que andei, foi melhor que aqui. Em Londres era excelente. Tudo funcionava bem, tinha linhas 24 horas, segurança e um serviço telefônico, também 24horas, aonde você consulta rotas e trechos. Tudo organizado e lógico. Aqui também deve ter sua lógica, mas eu ainda entendo pouco dela. Por isso, redobro a atenção e evito horários muitos tensos para por o pé na estrada. Hoje, um ônibus quase bateu na frente do meu carro e, o pior, a culpa seria minha (e do Estado pela má prestação de serviços). Ele freou e eu freei, meio segundo depois. Não chegou a sujar a pista com o pneu porque eu estava devagar, mas podia ter batido. Eu estava entrando numa pista secundária, saindo do Ceasinha, no Rio Vermelho. Não tinha sinalização. Eu olhei para um lado e estava tudo vazio. Fui acelerando e olhando para a esquerda e o ônibus freou, o motorista levantou os braços reclamando e, eu, com os olhos arregalados, repetia desculpas. Achei que ele vinha rápido demais para aquela situação. Ainda bem não aconteceu nada mais grave. Ali está tudo uma bagunça com a mudança das lojinhas para o galpão ao lado. É tipo um salve quem puder, tudo muito confuso, sem sinalização, sem suporte da policia do trânsito. É lamentável que nossas cidades não tenham um planejamento que inclua o pedestre, a bicicleta, o patins, o skate em suas faixas de tráfego. Isso diminuiria o tráfego de veículos, a poluição e os custos com saúde, na medida em que menos sedentarismo implica em menos doenças. Aumentaria o contato humano, também. Junto com isso, se os taxis fossem mais baratos, mais pessoas poderiam utilizá-los com maior constância, deixando seus carros na garagem e, consequentemente, baixando a circulação de veículos. Algumas cidades por onde passei ou morei conseguiram incluir o passo e a pedalada como uma medida respeitável de deslocamento. No Brasil, ainda gostamos de sofrer e sonhar com o financiamento (por sinal, caríssimo mas dissolvido em suaves prestações) de um carro novo. “Quem anda de ônibus”, como ouvi de uma passageira no trecho Ondina-Rio Vermelho (na linha Villas do Atlântico), “só anda porque não pode comprar um carro. Se eu pudesse, não estaria aqui”. É melhor sonhar em ter um carro do que exigir um transporte público PAGO respeitoso e formas seguras de transporte alternativo. Em Nova Iorque é brega ter carro, o chique é andar de botas!

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PROJETO PROPAGANDA

Transmissão pública ONLINE nos dias 03, 04, 07, 08, 09 e 10/07 às 16h e 18h.
Clique aqui para assistir!

Entre os dias 1o e 11 de julho, acontece em São Paulo, o PROJETO PROPAGANDA. Fruto de uma parceria da Núcleo Corpo Rastreado (produção) com o SESC/SP (co-patrocínio), as companhias de dança contemporânea Lia Rodrigues (RJ) e Cena 11 (SC) e outros profissionais do vídeo, da internet e da dança, o projeto, em seu início, foi contemplado com o Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna 2009. O principal mérito da empreitada é, justamente, a promoção da convivência entre as duas companhias e o investimento na investigação, algo raro no atual sistema de produção cultural que vivemos no Brasil. Esse espaço dedicado ao “estar junto”, ao “prestar atenção no como fazer” e à “criação de estratégias de ação coletiva”, entre outras características, se apresenta como um campo fértil de experiências (e não de comprovações). A propaganda, nesse projeto, acontece quando se afeta o corpo do outro.

Um dos desafios envolvidos no “estar junto” é a criação do “comum”. Embora as duas companhias tenham modos de trabalhar que diferem substancialmente, é possível observar ideias artísticas, preocupações e dificuldades similares entre elas. Essas descobertas estão se dando nesse convívio que envolve o exercício da fala e da escuta, das tomadas de decisão, das práticas corporais, das relações do corpo e dança com o vídeo e a internet, entre outras. Nesse sentido, cabe perguntar: quais são os pontos de conexão? Como é tomar decisões onde as escolhas implicam/reverberam em todos? Como criar ética/estéticas artísticas com as duas companhias? Como gerar estratégias coletivas de sobrevivência para a dança contemporânea? Como afetar o público? Como criar diálogos entre os participantes?

PROPAGANDA possui algumas palavras-chave, digo, tags que funcionam como pistas: extinção – dança – residência – manifesto – vídeo – acessibilidade – internet – público.



O SILÊNCIO DAS FORMAS
09/01/2010, 12:06 AM
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Untitled (2009), obra de Ann Veronica Janssens dentro da exposição  Serendipity no Wiels, em Bruxelas. Foto: Philippe de Gobert.

Encontrar a obra da artista inglesa radicada na Bélgica Ann Veronica Janssens foi um ato do serendipismo: uma descoberta feliz e inesperada! Aconteceu na Antuérpia, no teatro De Siegel, quando lá estava para assistir o espetáculo The Song (2009), uma colaboração bem-sucedida entre ela, a coreógrafa Anne Teresa de Keersmaeker e o artista belga Michel François. A sintonia é clara e fina: o interesse nas formas geométricas (especialmente o quadrado), na matéria que cria som e no movimento-espaço-tempo.

Fragmento de Untitled (Golden section), 2009. Foto: Maíra Spanghero.

Desenvolvido em parceria com Michel François durante a criação do espetáculo, Untitled (Golden section) não é realmente um trabalho para ser exposto numa galeria, dadas as circunstâncias de sua invenção. Quando a luz atinge essa espécie de cortina cintilante, produz reflexões difusas, irregulares e fascinantes que só podem ser vistas durante a apresentação da dança. Além disso, a cenografia também é usada para produzir sonoridade, transcendendo sua materialidade e dialogando com os corpos dos bailarinos.

Dá-se o nome de serendipity (serendipismo ou serendipidade, em português) à aptidão ou dom de atrair acontecimentos felizes ou úteis (ou de descobri-los por acaso). Muitos achados na ciência e na arte dependem dessa ocorrência. Serendipity é, também, o nome da exposição que Ann Veronica Janssens apresentou ao público no interessantíssimo Wiels, em Bruxelas, com curadoria de Charles Gohy, em 2009. A palavra que deu título à exibição foi cunhada em 1754, pelo escritor inglês Horace Walpole “a partir do conto de fadas Os três príncipes de Serendip, cujos heróis sempre faziam descobertas, acidentalmente ou por sagacidade, de coisas que não procuravam” (Houaiss). A palavra, tal como conhecemos hoje, deriva do antigo nome do Sri Lanka, Serendip ou Serendib (do árabe Sarandíb).

Liquid Bar, 2009. Foto: Maíra Spanghero.

Interessada no encontro do corpo com o espaço, a artista utiliza luz, sombra, som e cor para criar formas (ou será o contrário? ou será junto?) em esculturas, vídeos, instalações que só fazem sentido na medida em que afetam o corpo daquele que com esses objetos se relaciona. É nessa experiência sensorial, nessa desorientação e instabilidade promovidas na percepção do visitante, que suas obras se revelam e ganham sentido. Ao ser afetado, o corpo percebe/cria um outro espaço-tempo que se constrói dentro do ambiente onde as peças se encontram. Por isso, renda-se e permita-se para poder usufruir!

Chambre Anéchoïque, 2009. Foto: Maíra Spanghero.

Na instalação Chambre Anéchoïque, o visitante é convidado a entrar numa sala recoberta por uma superfície feita de material acústico absorvente, como se vê na imagem acima. Ou seja, quando você entra dentro dessa sala e lá é fechado, não escuta mais nenhum ruído. É uma experiência intensa e perturbadora, essa de ouvir o silêncio. Talvez, por isso, a duração desse conhecimento (o de ouvir o silêncio) obtido pelos sentidos seja de apenas um minuto. Lá dentro, sozinho, você é capaz de ouvir seus batimentos cardíacos ou seus pensamentos, o que pode ser insuportável para alguns e encantador para outros.

Sans titre, 1993. Foto: Maíra Spanghero.

BRANCO NO PRETO NO BRANCO. Luzes (e formas) piscam-crescem-desaparecem-diluem-somem-cegam-turvam. Entram para dentro de si e de mim. Vertigem, saturação, persistência da visão, velocidade, som. Alteram o espaço, criam espaço. Transformam minha percepção do tempo, de onde estou, do claro, do escuro. Pequenas imersões que fazem meus olhos enxergarem coisas que parecem não existir. Tonteiam-me. Acordam os sentidos e terminam por promover impresssões únicas e individualizadas. Por isso, esses trabalhos expostos provocam uma espécie de intimidade que se descortina, além de margear uma instabilidade entre o visual e o auditivo. Curiosamente, essas esculturas de luz e som (ou vídeos, se você preferir), na maioria das vezes, não podem ser fotograficamente capturadas, mas sim experimentadas. É o valor do encontro que conta e da memória que deixa.

NUM PISCAR

a luz pulsa minha pele

o preto me acolhe

Mais informações e imagens podem ser vistas clicando aqui.



The Song
22/11/2009, 10:49 PM
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CORPOS CUIDADOSAMENTE SELECIONADOS
23/10/2009, 2:25 PM
Filed under: corpo, reportagem afetiva | Tags: , ,

(Este texto é proibido para menores de 18 anos. Leitores podem considerar incômodas descrições e imagens aqui contidas)

Vênus de Cera - figura anatômica feita em Florence, 1771-1800, Cortesia do Science Museum, Londres

Vênus de Cera - figura anatômica feita em Florence, 1771-1800, Cortesia do Science Museum, Londres

Um livro grande e corpulento está aberto e mostra uma ilustração com sobreposições. Uma imagem sobre a outra. Você pode abrir o tórax para ver o que tem dentro. “Uma Pesquisa sobre o Microcosmo; ou, A Anatomia de Corpos de Homem e Mulher”, de 1702, é um dos intrigantes materiais disponíveis na exposição Exquisite Bodies or the Curious and Grotesque Story of the Anatomical Model.

 

O nome é muito adequado ao que exibe: exquisite vem do latin exquisitus e sua origem está no século XV. Ex + quaerere = procurar. Também pode ser traduzido como “cuidadosamente selecionado”, “marcado por impecável maestria ou por execução elaborada, ingênua e bela”, “extremo”. Realizada pela excelente Wellcome Collection, uma instituição interessada em debater assuntos ligados a arte-ciência, medicina e saúde, a exposição reuniu inúmeros objetos (pinturas, desenhos, fotografias, livros entre outras peças) e muitas informações para mostrar um pouco da história dos modelos anatômicos e a relação humana com a cura, a morte, a doença, a saúde e a vida. Os objetos são preciosas peças ‘arqueológicas’ e nos contam histórias que vão além delas próprias. Falam de seu contexto, dos entendimentos culturais e científicos em voga, das crenças, dos preconceitos. São objetos curiosíssimos ou apenas para os indubitavelmente curiosos.

imagem da exposição

imagem da exposição

A exposição traçou um apanhado dessa história desde do início com as estranhas obras de arte patrocinados pelo Duque de Tuscany e considerados na sociedade vitoriana como trabalhos imorais e pornográficos. Segundo informações divulgadas pelo evento, no século XIX, a despeito dos melhores esforços dos body snatchers (aqueles que roubavam corpos das covas), a demanda vinda das escolas de medicina por cadáveres frescos estava longe de ser rapidamente atendida. Uma solução para esse repulsivo problema surgiu na forma de modelos de cera que imitavam e representavam os corpos. A mistura, portanto, entre “ciência séria” e “circo dos horrores” revela crenças sobre fragilidade, sexualidade e sobre a “divina arquitetura” existentes nesse mesmo século XIX.

 

Extração da placenta: ilustrando os estágios do nascimento de um bebê (c.1900) Coleção Família Coolen, Antuérpia/Museum Dr Guislain, Ghent, Bélgica

Extração da placenta: ilustrando os estágios do nascimento de um bebê (c.1900) Coleção Família Coolen, Antuérpia/Museum Dr Guislain, Ghent, Bélgica

Museus de modelos anatômicos ficaram populares entre os europeus que procuravam um entretenimento diferente para ocupar as tardes. Em Londres, Paris, Bruxelas e Barcelona, o público poderia aprender sobre as estruturas internas do corpo, seu sistema reprodutivo e sua vulnerabilidade para doenças através de peças dispostas que combinavam ciência com horror. Pagando uma pequena taxa, até pessoas com ganhos escassos poderiam ter acesso a conhecimentos até então restritos aos nobres e aos estudantes da área. Porém, na metade final do século XIX, os museus de anatomia foram acusados de obscenidade e campanhas moralistas provocaram mudanças e as coleções de modelos de cera foram, então, absorvidas em novas esferas do entretenimento: feiras ao ar livre e circos.

Não sei bem o porquê, mas a grandissíssima maioria dos modelos ali expostos (e os que eram produzidos) eram de figuras femininas que podiam ser fragmentadas e despedaçadas em diferentes partes. Muitas réplicas revelam os estágios da gestação humana e do nascimento, o que revela interesse e fascinação enormes pelos mistérios da concepção. Outros modelos eram mais “macabros” e mostravam o corpo com doenças que eram consideradas “sociais”, como a sífilis, a tuberculose, o vício de drogas e bebida.

 

Cabeça mostrando sífilis, c.1900, Coleção Família Coolen

Cabeça mostrando sífilis, c.1900, Coleção Família Coolen

Um dos mais famosos museus de anatomia do século XIX em Londres foi o de Joseph Kahn, que atraiu mais de 200 visitantes por semana no auge de sua popularidade. Kahn, que era médico vindo da Alsace, veio para a cidade em 1851 e estabeleceu seu Museu Anatômico e Patológico no número 315 da Oxford Street. Sua coleção incluía modelos mostrando o desenvolvimento do feto humano, réplicas em tamanho natural do Apollo Belvedere e Vênus de Medici, além de numerosas espécimes ilustrando as “doenças da imprudência” e os “terríveis efeitos do onanismo”. Para complementar os objetos expostos, palestras eram promovidas diariamente sobre assuntos como dieta, embriologia e saúde sexual.

Um poster datado de 1854 anuncia a exibição do novo modelo anatômico “florentine” sob a palavra de ordem “conheça a si mesmo”. Mulheres podiam assistir a demonstração, comandada por Mrs Baker, duas vezes por semana, às terças e sextas, enquanto os homens tinham tinham o direito de escolher entre segunda, quarta e quinta mas com a demonstração do marido da senhora Baker.

 

modelo do engolidor de espada

modelo do engolidor de espada

Entre desenhos, páginas de livros antigos e modelos do corpo humano feitos de cera, você se depara com um engolidor de espada, engolindo a própria, como o tórax e o abdômen abertos para mostrar o trajeto do objeto. É uma espécie de reprodução explicativa com fios atados nas partes do corpo que conectam-se a plaquinhas com o nome do órgão. Performers que eram capazes de passar uma longa peça de metal para dentro do estômago aprenderam a reprimir o reflexo da garganta e a controlar a ânsia de vômito relaxando os músculos no esôfago que não estão, geralmente, sobre o controle voluntário.

 

Mulher Barbada, sem data (c. 1900), Coleção Family Coolen, Antuérpia/Museum Dr Guislain, Ghent, Belgium

Mulher Barbada, sem data (c. 1900), Coleção Família Coolen, Antuérpia/Museu Dr Guislain, Ghent, Bélgica

 

Outras imagens que chamam a atenção são a do bezerro de duas cabeças, a do cyclope, a da mulher barbada, a dos anões e a das irmãs siamêsas. Essas últimas são imaginadas através de uma ilustração e de um recorte de jornal do dia 4 de julho de 1936 que anuncia a morte de uma delas. A outra irmã estava bem de saúde, na ocasião do acontecido, mas muito abalada com o falecimento da companheira, que agora tinha que carregar por onde fosse. Os médicos se preparavam para proceder a cirurgia. Já a exposição da mulher barbada era comum em shows no século XIX e início do XX. Elas, provavelmente, sofriam de uma desordem congênita conhecida como “síndrome do lobisomem”.

Já os cyclopes eram pessoas com um olho só, no meio da testa. Embora raros, muitos bebês cyclopes foram preservados em museus de anatomia. A condição é geralmente fatal.

cyclope

cyclope

A associação entre esses corpos e o teatro de entretenimento é típica. Para H. Fouquier (La Vie Parisienne, Paris, 1887), “o então chamado entretenimento científico é muito frequentemente uma simples desculpa para mostrar às pessoas coisas peculiares que mais propriamente causariam escândalo…Eu prefiro pensar que, para muitos visitantes, homens e mulheres, essas figuras estão meramente lá para nutrir suas fantasias sujas”.

 

Poster da Coleção Roca

Poster da Coleção Roca

Clicando aqui você encontra imagens da exposição que não podiam ser fotografadas. Para ver o vídeo com a curadora Kate Forde clique nesse link. Leitores que compreendem inglês podem checar a matéria do The Guardian e o blog Morbid Anatomy.

irmãs siamesas

irmãs siamesas

 




No escuro

no escuro

Essa, com certeza, será daquelas experiências que ficará para sempre na categoria das “inesquecíveis”. Afinal, não é todo dia que se janta num lugar absolutamente escuro sendo servida por garçons…cegos! Aliás, quem foi que disse que se come com os olhos?

Pois é exatamente esse o diferencial do restaurante Dans Le Noir? que tem endereço certo em Paris e Londres (em breve, filiais em Barcelona e Nova Iorque). Se você gostou da ideia, a primeira coisa a fazer é reservar o seu lugar via e-mail ou telefone com antecedência e aguardar pela confirmação. Foi o que fiz. Esperei, curiosa, pelo compromisso mais esperado da semana.

Ao chegar no lugar, fomos, eu e meu amigo, recepcionados por uma moça que falava inglês com forte sotaque francês. Ela nos orientou a deixar nossas bolsas, casacos e celulares num armário com chave logo do nosso lado. Entregamos nossos cartões de crédito e, enquanto nossa mesa era preparada, fomos levados para um bar lounge, onde bebericamos e escolhemos o menu entre carne, peixe, vegetariano ou surpresa. Os cardápios têm preço fixo e é possível combinar e selecionar as seguintes opções: entrada, bebida, prato principal e/ou sobremesa. O detalhe é que você não sabe mais nada a não ser qual menu escolheu, ou seja, não sabe que tipo de carne, com que acompanhamento ou  molho.

Eu estava ansiosa, meu amigo também. Após uma meia-hora, resolvemos perguntar quanto tempo ainda ficaríamos no lounge e a moça foi checar se nossa mesa estava pronta. Estava. Voltamos para o hall de entrada do restaurante, onde nos juntamos a uma outra dupla. Fomos orientados a formar uma fila, braço direito no ombro direito da pessoa a nossa frente. Fomos, também, apresentados ao Takashi, o nosso garçom, que nos deu as boas vindas e algumas instruções do tipo: caso quiséssemos fazer algum pedido extra ou perguntar algo, deveríamos chamá-lo pelo seu nome. Nos apresentamos e ele abriu uma cortina por onde passamos e entramos, um atrás do outro, num corredor escuro.

A sensação é indescritível. Ser guiado por um cego tem um impacto enorme no sistema sensório-motor de seres que se orientam, sobremaneira, pelo visual. Essa inversão de condição tem conseqüências radicais para os que enxergam e para os que não enxergam. Esse corredor não era totalmente escuro, mas quando entramos no ambiente do restaurante, passando por uma porta, não dava para enxergar absolutamente nada. Nem o seu nariz. A escuridão era total e irrestrita. Nem se ficássemos ali 3 horas, não daria para enxergar nadica de nada, nem um vulto, num uma sombra, como quando acontece no escuro do quarto de dormir. A ausência de luz era completa e eu estava….cega.

Takashi nos colocou, um a um, em nossos lugares. Ele sabia como direcionar sua voz e eu sabia quando ele falava comigo. Pegando no meu braço, ele indicou onde havia uma cadeira para eu me sentar. Lá fui eu. Tateei, puxei e me acomodei. Agradeci o fato de não ter nenhuma bolsa, casaco ou celular comigo. Sentei e passei a mão ao redor. Percebi que havia uma mesa na minha frente. Chamei pelo meu amigo, estava com medo de ficar sozinha no escuro e sem ninguém conhecido por perto. Ele estendeu a mão pela borda da mesa e minha mão encontrou a dele. Ufa, ele estava na minha frente.

Notamos a existência de dois copos, grandes e pesados. Takashi trouxe o vinho e disse ao meu amigo que tomasse conta dele. Para facilitar, e compreendemos o porquê disso imediatamente, a taça era, na verdade, um copo redondo e largo. Meu amigo disse que iria me servir e eu estendi o copo na minha frente. Mas, como ele iria saber aonde estava o copo? Com a outra mão, eu tentei encontrar a garrafa e ele fez o mesmo, tentando encontrar meu copo. Notei que ele enfiou o gargalo da garrafa dentro do corpo e virou um pouco. Disse que já tinha me servido e eu coloquei o copo na boca mas a bebida não veio. Coloquei um dedo dentro e tinha apenas um tiquinho mas a sensação que ele tinha era de ter enchido. Tentamos mais uma vez e ele derramou tanto que quase caiu para fora. Rimos. O vinho era delicioso. Preferimos deixar a escolha para o chef (que por sinal não era cego), de acordo com o cardápio de peixe que solicitamos (avisei antes que não comia pimentão). Percebemos que o ambiente estava extremamente barulhento e que as pessoas falavam alto demais para uma experiência tão intimista quanto esta. Mais tarde, soubemos que as pessoas, para compensar a ausência da visão, acabam falando mais alto que o normal, além, suponho eu, dos efeitos que as bebidas geram.

Logo depois, Takashi voltou e avisou que serviria nossas entradas. Colocou meu prato na mesa, sempre falando comigo e dizendo o que faria e depois o do meu amigo, nos desejando “bom apetite”. O cheiro era delicioso. A primeira iniciativa que eu tive foi a de tatear o prato com a mão para saber onde ele havia sido colocado exatamente. Ok, bem na minha frente. Percebi que o prato era grande e quadrado, talvez para facilitar a identificação de sua posição porque, caso fosse redondo, ficaria mais difícil de localizar sua relação com o espaço. Encontrei o garfo e “às cegas” tentei garfar alguma coisa. Coloquei o ditocujo na boca – nessa hora meu amigo brincou “será que vou encontrar minha boca?” – e…vazio. Repeti o procedimento umas cinco vezes e o garfo vinha sempre vazio. Ao menos, eu tinha conseguido acertar a boca. Saquei que minha estratégia não estava funcionando. Assim sendo, coloquei os dedos no prato até que eles encostassem em alguma coisa. Identifiquei algo cremoso como um molho e uns pedaços de alguma comida. Empurrei para o garfo e, finalmente, experimentei a primeira bocada, lambendo depois os dedos. Uma delícia! Descobri uns camarões empanados, também muito saborosos, e fiquei imaginando qual seria a disposição das coisas. Como o procedimento de colocar a mão e os dedos no prato funcionou – ainda que qualquer mãe torcesse o nariz (no escuro não ia mesmo dar para ver o seu nariz torcido) – eu continuei mais um pouco assim até que…abandonei de vez o garfo. Estava comendo com as mãos! Era mais eficiente e eu podia sentir texturas e temperaturas, antes de colocar na boca. O guardanapo de pano, imprescindível, é grande e aderente, o que deve ser proposital.

Perguntei ao meu amigo, que é uma pessoa educada e muito contida publicamente, como ele estava se virando. Ele riu, disse que estava, como eu, comendo com as mãos e bebendo o vinho no gargalo. Eu gargalhei. A experiência de comer no escuro parecia ser psicologicamente libertadora também! Apenas lamentei quando percebi que tinha comido toda a entrada. De tão gostosa, eu queria aproveitar tudo até o fim e anunciei em bom tom: vou lamber o prato! Eu não vi mas acredito que meu amigo tenha feito o mesmo.

Dali a pouco, Takashi voltou perguntando se poderia retirar os pratos para servir o principal. Prontamente concordamos e eu, ainda reforcei, fazendo “sim” com a cabeça (risos). Muito melhor do que a gente, Takashi foi direto, preciso e pegou os pratos, um de cada vez. Sempre se dirigindo atenciosamente a um e ao outro, ele nos serviu o principal. Como cheirava bem e eu era capaz de sentir o calor da fumacinha! Descobri que meu corpo estava melhor adaptado à situação e já reconhecia melhor as distâncias entre mim e o prato, o copo e a garrafa. Tentávamos adivinhar o que comíamos e, pelo menos eu, tinha esquecido completamente da existência do garfo. Lamber os beiços e os dedos nunca foi tão bom. Reconheci um pedaço de beringela e fiquei felicíssima. Os pedaços de peixe estavam suculentos e cabiam inteiros na boca. Com certeza, devia ser premeditado, já que usar a faca não seria muito recomendável para seres sub-desenvolvidos-predominantemente-visuais. Fiquei curiosa para saber a cor das comidas que ali estavam dispostas e aposto que estavam visualmente bonitas (ao fim da experiência, é possível ver fotos do que foi comido).

Melhor que isso eram os cheiros, as texturas e os sabores. Só provando para saber. Lambi o prato de novo, lamentando terrivelmente que estivesse terminado. O gole de vinho cresceu na minha boca. Entre uma garfada, digo “dedada” e outra, comentávamos sem parar o que sentíamos. Cada conquista motora do nosso corpo era apreciada em detalhes. Peguei a garrafa de vinho e notei que tinha acabado.

Takashi perguntou se queríamos mais alguma coisa. Arrependi-me amargamente de não ter o costume de comer sobremesa e prometi que voltaria outra vez só por conta disso. Não me dei conta de quanto tempo ficamos ali mas me sentia expandida, como se houvessem orelhas por todo o meu corpo e como se dedos saíssem dos meus olhos. A negritude era agora leve e eu estava segura e confortável sendo guiada pelo meu querido garçom cego, um imigrante do Japão. Ele nos ajudou a levantar, nos orientou em que direção girar o corpo e quando deveríamos andar. Enquanto caminhava, podia ouvir as pessoas ao redor mas não esbarrei em nenhuma delas, nem em nada. Meus passos estavam diferentes. Eu tinha outra confiança no mundo.

Cruzamos a porta, onde pude ver que estava escrito algo como “absolutamente proibido ultrapassar essa porta sozinho”. Estávamos de volta à penumbra do corredor e, a seguir, diante da cortina que nos devolveria ao mundo dos que precisam de olhos. Agradeci com devoção à experiência ao Takashi e cruzei a cortina.

Nunca mais fui a mesma.



objeto coreográfico
04/10/2009, 4:50 PM
Filed under: mexe que eu gosto, reportagem afetiva

Publiquei um texto no site do Idança chamado “Corra seu risco” a respeito da nova instalação do coreógrafo William Forsythe, na Bienal de Veneza. O texto gerou um interesse pelo termo objeto coreográfico e a discussão continua aberta. A seguir, apresento algumas imagens que fotografei de Scattered Crowd (2002) e The Fact of Matter (2009). Mais imagens estão disponíveis clicando aqui. Outra dica de texto vem da Bianca Scliar.

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Scattered Crowd (Focus on Forsythe, Sadle’s Wells, Londres, 2009)

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Forsythe na abertura da instalação, 2009.

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