maíra spanghero


HIPERTEXTO PARA RÓTULO DE ESPETÁCULO DE DANÇA

 

Foto: Tiago Lima

Crítica premiada em primeiro lugar no edital de Crítica de Arte da Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB) em 2012.

Por Maíra Spanghero

As luzes se acendem e a música Blue Moon começa. Há todo um clima no ar quando o rapaz entra, fazendo charme, uma mão em cada bolso da bermuda. O cenário é artificial como um filme de Hollywood e feito com caixas de arquivo coloridas. Vestido de Clark Kent o rapaz não é Neto Machado. É, na verdade, um super herói disfarçado. No plano conjunto ele está em composição com o todo, quase uma fotografia. Enquadrado em plano aberto, da cabeça aos pés, parece um personagem de história em quadrinhos, quase imóvel. Em um close vemos seus lábios cantarem junto com Diane Draw. Com o passar do tempo um recorte em plano americano revela que parte de seu corpo vai ganhando movimento passo a passo, até se tornar um desenho animado antes de ser animado. O início de KODAK, o mais recente trabalho concebido pelo artista curitibano, integrante da Couve-Flor Minicomunidade Artística Mundial, revela um interesse translúcido pela sétima arte!

Lento e pausado, com música instrumental ao fundo, Clark Kent/Neto Machado decupa – corta em pedaços – uma ação ordinária e fluida, como a de desabotoar uma camisa. O movimento é engasgado, mecânico, linear e fragmentado. Como nas centenas de fotografias de Eadweard Muybridge (1830-1904), pioneiro dos estudos visuais da locomoção humana e animal. Ambos estudam o movimento com um procedimento comum: o stop motion, técnica que consiste em congelar uma ação quadro-a-quadro para que, quando colocados um após o outro num dado intervalo de tempo, nos causem a ilusão de movimento. A diferença entre eles é que Muybridge divide o movimento dinâmico usando dispositivos mecânicos para capturá-lo. Para Neto, o cinema seria, então, “a ilusão do movimento enquanto KODAK é a ilusão do não-movimento, que sempre existe, por menor que seja, em um corpo vivo”. Como é sabido, essa ilusão só é possível devido ao fenômeno conhecido por “persistência da retina”, característica que nossos olhos têm em continuar percebendo cores e imagens mesmo que a referência exterior já tenha desaparecido. Goethe é um dos primeiros a se interessar por isto em seu Tratado das Cores, de 1810.

A animação stop motion tem uma história antiga com o cinema e foi frequentemente usada para mostrar objetos se movendo como se fosse mágica. A primeira experiência é creditada a Albert E. Smith e ao ilusionista e diretor britânico J. Stuart Blackton por The Humpty Dumpty Circus (1897), no qual acrobatas e animais de brinquedo são trazidos à vida. A mesma técnica foi usada no clipe da banda ‪The White Stripes, o famoso Fell in Love with a Girl, uma das referências explícitas do espetáculo KODAK.

O procedimento, que surgiu no solo anterior de Neto (MOODE – 2010), trouxe consigo todo um campo temático relacionado com séries televisivas e cultura pop japonesa (Jaspion, ChangeMan, Tokusatsu) dos anos 80 em diante, com questões de identidade e gênero que passam a ocupar a pauta de inúmeros debates e setores da sociedade, com brincadeiras infantis e por aí vai. Faz todo o sentido. Afinal, o que esperar de um menino nascido em 1985, como ele mesmo diz, “um piá de playground, que jogou bola na garagem do prédio e aprendeu a dançar com Michael Jackson, gravando e vendo os seus clipes em videocassetes?”

CORTA!

Ação! O carro entra e foge em disparada. Ouvem-se gritos. Bombas explodem. Prédios inteiros são destruídos. O cenário é devastador. O monstro está à solta. Por fim, o herói chega para salvar o mocinho em perigo (“eu sou o super herói mas eu o desejo”). Será um homem? Será uma máquina? Ele se confunde com o King Kong. O herói ensaiou lutas e golpes sob technicolor, “atirou” imagens com seu super projetor portátil de raios lasers, foi atingido, morreu, mas voltou vivo depois do comercial. Pois que seja, visto que o mundo de KODAK não é feito para durar como as fotos. Tudo se constrói e se destrói com a mesma facilidade. É um mundo de plástico, que pode ser reconstruído e transformado, como as peças de um Lego.

A marca KODAK foi criada por George Eastman em 1854. A partir de 1888, ele passa a vender câmeras portáteis com rolos de filme de cem poses e cria o famoso slogan: “você aperta o botão e nós fazemos o resto”. É um nome que nada significa, mas que pode ser falado em qualquer língua. Por que dar ao nome do espetáculo uma patente conhecida? O espetáculo é um produto para brincar? Ele produz imagens que nos causarão satisfação e momentos tão bons como os que gostamos de fotografar? Ele nos faz lembrar de nós mesmos e nosso passado? É uma peça de colecionador? Ou será pura publicidade? Você decide o(s) foco(s), mas eu garanto: é, no mínimo, muito divertido.

KODAK é um espetáculo de dança para crianças, adolescentes e adultos. A classificação é livre, mas a indicação é obrigatória.



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Vida de motorista
05/03/2012, 2:36 PM
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Depois de 41 anos andando no colo, de velocípede, bicicleta, carona, trem, ônibus, metrô e taxi, agora eu “ando” de carro há um mês. Sinto que minha vida, digamos assim, melhorou. Ao menos essa parte administrativa do dia-a-dia – supermercado, cabeleireiro, restaurante, farmácia, praia – facilitou muito. A vida moderna das cidades, com seus shoppings, estacionamentos e ruas, é feita para os carros. Por um lado me sinto mais segura do que andando a pé, por outro os riscos e perigos do trânsito soteropolitano talvez até me deixem menos segura do que eu penso. Notei que estava pegando o carro até para ir até o posto de gasolina, pouco mais de uma quadra para baixo da minha rua, tomar café e comer pão de queijo no 24 horas deles. Primeiro, considerei meio absurdo e sedentário. Depois, fui me dando conta de que, ao caminhar essa trecho, como tantas e tantas e tantas vezes eu fiz ao longo deste um ano que moro aqui, eu encontro calçadas: destruídas, com carros estacionados, cocô de cachorro e lixo. Chegando ao fim da minha rua, para atravessar a Rua Oswaldo Cruz de uma margem para outra, é preciso andar até a sinaleira e esperar eternos 10 minutos. Dependendo do horário, o que significa o dia todo em Salvador, o sol e o calor são insuportáveis. Não há árvores ao longo do trecho, apenas uma do lado direito. Foi assim que me dei conta de que meu corpo sabe que é muito mais agradável ir de carro, no ar condicionado e, se quiser, com som ligado. Mesmo que eu tenha que esperar, é mais confortável. Com isso, cheguei a constatação (óbvia) de que todas minhas tentativas de ser uma pedestre nessa cidade (e não estou falando de pegar o carro para ir caminhar num curto trecho da orla, nas imediações da Amaralina até _____, onde tem estradinha para pedestre e bicicleta) eram tão incômodas – que perdia mais a vontade a cada tentativa. É fato: as cidades não tem mais espaço para os caminhantes e sim para os automóveis. Tudo é mais fácil de carro. Até ficar presa no engarrafamento é mais legal se você está de carro, principalmente, se estiver um calor insuportável. Caso contrário, é possível que você esteja num veículo público sujo, como é o caso de Salvador, e com alguém escutando uma música de gosto duvidoso numa altura descabida. Sempre peguei ônibus para trabalhar, estudar e me divertir. Conheço bem o ritual, os problemas, o custo x benefício, os perigos, o tempo gasto quando se é passageiro. E, como diz a piadinha, tirando o motorista e o cobrador, o resto é tudo passageiro. Andar de ônibus na Europa, pelo menos nos lugares em que andei, foi melhor que aqui. Em Londres era excelente. Tudo funcionava bem, tinha linhas 24 horas, segurança e um serviço telefônico, também 24horas, aonde você consulta rotas e trechos. Tudo organizado e lógico. Aqui também deve ter sua lógica, mas eu ainda entendo pouco dela. Por isso, redobro a atenção e evito horários muitos tensos para por o pé na estrada. Hoje, um ônibus quase bateu na frente do meu carro e, o pior, a culpa seria minha (e do Estado pela má prestação de serviços). Ele freou e eu freei, meio segundo depois. Não chegou a sujar a pista com o pneu porque eu estava devagar, mas podia ter batido. Eu estava entrando numa pista secundária, saindo do Ceasinha, no Rio Vermelho. Não tinha sinalização. Eu olhei para um lado e estava tudo vazio. Fui acelerando e olhando para a esquerda e o ônibus freou, o motorista levantou os braços reclamando e, eu, com os olhos arregalados, repetia desculpas. Achei que ele vinha rápido demais para aquela situação. Ainda bem não aconteceu nada mais grave. Ali está tudo uma bagunça com a mudança das lojinhas para o galpão ao lado. É tipo um salve quem puder, tudo muito confuso, sem sinalização, sem suporte da policia do trânsito. É lamentável que nossas cidades não tenham um planejamento que inclua o pedestre, a bicicleta, o patins, o skate em suas faixas de tráfego. Isso diminuiria o tráfego de veículos, a poluição e os custos com saúde, na medida em que menos sedentarismo implica em menos doenças. Aumentaria o contato humano, também. Junto com isso, se os taxis fossem mais baratos, mais pessoas poderiam utilizá-los com maior constância, deixando seus carros na garagem e, consequentemente, baixando a circulação de veículos. Algumas cidades por onde passei ou morei conseguiram incluir o passo e a pedalada como uma medida respeitável de deslocamento. No Brasil, ainda gostamos de sofrer e sonhar com o financiamento (por sinal, caríssimo mas dissolvido em suaves prestações) de um carro novo. “Quem anda de ônibus”, como ouvi de uma passageira no trecho Ondina-Rio Vermelho (na linha Villas do Atlântico), “só anda porque não pode comprar um carro. Se eu pudesse, não estaria aqui”. É melhor sonhar em ter um carro do que exigir um transporte público PAGO respeitoso e formas seguras de transporte alternativo. Em Nova Iorque é brega ter carro, o chique é andar de botas!



MENINA ISABELA
16/10/2010, 7:37 PM
Filed under: cartas, literatura afetiva, literatura barata | Tags: ,

 

não abro mão do que é meu!

 

São Paulo, 16 de outubro de 2010.

Querida Isabela,

Meu nome é Maíra e, diferente de você, já sou uma menina crescida. Pelo menos em alguns aspectos como altura, peso e data de nascimento. Porque em termos de indignação, temos a mesma idade. Afinal, que história é essa de fechar a porta, ainda mais quando não estamos por perto para colocar o pé e impedir? Concordo com você, não é nada legal. O jeito é tentar conversar, desde que a outra parte esteja disposta a ouvir, como foi o seu caso. De qualquer modo, sua estratégia é muito eficiente e corajosa. Vou experimentar agora mesmo: – não fecha a porta! tá? pode ser? tranquilo?

Um beijinho doce,
Maíra



o dia em que acionei o alarme de incêndio

pressione a bolinha preta

Londres, 16 de janeiro de 2010.

Nossa, tanta coisa aconteceu. Pensei tantas frases que queria escrever. Que intensa vida mental eu tenho! Vou começar por ontem. Encomendei meu duvet (não sei antes ficar em dúvida se deveria ou não comprar um de penas de ganso, já que me imagino ativista dos direitos dos animais…talvez eu não seja lá isso tudo…) e encomendei também um tampão de ouvido tamanho pequeno já que o médio chegou e me incomodou. Estava tão de saco cheio desse barulho da caixa de incêndio desregulada, mas tão de saco cheio que desejei comprar uns três modelos diferentes de tampão de uma só vez! Inclusive daqueles super avançados para bateristas não ficarem surdos, sabe?

O tempo corre rápido e a produção da vida toma um tempo danado! Quase não consigo me concentrar na pesquisa, embora ela esteja sempre nos meus pensamentos. Isso me incomoda, minha dispersão, ao mesmo tempo, que me vejo tão cheia de ideias! Poderia ter trabalhado se não tivesse saído para encontrar o Charles. Levei os regalos para ele. Nos encontramos na lojinha da parte moderna da National Gallery e, claro, não resisti e comprei um livrinho sobre o número de ouro e um guarda-oyster.

Depois fomos no ICA (Institute of Contemporary Arts) e sempre acho meio meia boca as exposições de lá. Ou, acho que não me conecto muito mas gostei de um rato de pelúcia que respirava, deitado no chão, enquanto dormia. Mas o que gosto mesmo é daquela lojinha, que é pequenininha e cheia de livros ótimos, cartões incríveis, DVDs e outras coisinhas mais…comprei outro guarda-oyster, aliás, dois, e uma caneta. Tomamos um drink e fomos andando até o Soho. O Charles ia me levar num restaurante belga, o Belgo, já que eu me mostrei muito animada com o halp pint de Leffe, coisa que nunca tinha visto por aqui. Aliás, só vendem half porque é forte e não dá para beber quente (coisa que os ingleses adoram).

Comemos, bebemos e conversamos bastante. Adoro as histórias dele, adoro! Me lembra o tempo do Mário Fofoca. E ele tem uma memória incrível para detalhes. Tenho vontade de escrever coisas que ele conta. Quem sabe…um dia…

Caminhamos até o metrô Tottenham Court Road e peguei minha northern-line-rumo-south-london para Balham. Chegando em casa, perto das dez e meia, e nauseada com o barulho da fire box, eu tive um ato impulsivo, tipo sem-querer-querendo…pressionei de leve a superfície do alarme e a porra imediatamente disparou um barulho dos infernos!!! Subi as escadas correndo (feito criança) para ninguém descobrir que tinha sido eu. O ruído era ensurdecedor e apitava em todos os flats da casa (são 4 ao todo). Liguei para o Charles e falei baixinho “acho que fiz uma besteira”. Ele respondeu, “fica quieta, apaga a luz, que alguém vai ligar para avisar e alguém virá resolver o problema, se alguém bater na sua porta, atende e diz que a dona não está e que você é prima dela”. Ok.

Me fechei no quarto com meu computador e fui responder email para tentar me distrair do barulho dos infernos. Por que você foi fazer isso, Maíra? Agora nem dormir você vai conseguir e antes, com o chato do pi…pi…pi, você – pelo menos – conseguia, né? Ouvi meu vizinho descer escadas, vi a luz acesa e abri minha porta duas vezes na esperança de trocar umas palavrinhas com ele mas não o vi e o barulho era tão alto que não dava para ele me ouvir abrindo a porta (ou precisaria ser atento aos mínimos detalhes, como eu o sou, semiótica por natureza). A porra do alarme soou durante pouco mais de míseras uma hora e quarenta, e eu no computador com os tampões, que pouco adiantavam, além de doerem. Anyway, era melhor com eles do que sem eles.

pi...pi...pi...pi...pi...pi...pi...pi...pi...pi...pi...pi...

Será que nenhum bombeiro forte e bonitão vai aparecer, caramba? Nem aquele carro vermelho, igual ao do Lego e da Praça dos Bombeiros, lá em Floripa?

De vez em quando eu ia na janela olhar e nada. Nada de bombeiro, nada de bonitão e nada do alarme se acalmar. Para falar a verdade, eu já tinha me imaginado várias vezes segurando um martelo e quebrando aquela maldita caixa de incêndio, que nem quando faltou eletricidade e eu quase congelei em pleno inverno londrino, o barulho parou. Realmente, dá mesmo para confiar nas caixas de incêndio produzidas nos países altos, viu, gente? Se você estiver sem luz, sem água quente, sem aquecimento, sem internet, sem aparelho de som, sem TV, sem namorado e seu flat pegar fogo, alguém vai te salvar (talvez não um bombeiro bonitão) porque o alarme vai funcionar!

Cabe registrar que a moçoila aqui já tinha tentado inúmeras formas de resolver o problema. Já tinha ligado para o service number vááárias vezes e nunca ninguém atendeu. Já tinha falado com a vizinha e, na opinião dela, tínhamos que esperar – e olha que o flat dela é mais perto do pipipi. Já tinha falado com a vovozinha querida do flat A, ela recomendou ligar. Estava eu tentando divagar sobre essas coisas quando…

De repente o alarme parou, eu respirei uma vez aliviada e ele voltou. A respiração travou. Depois o alarme parou. Segunda respiração aliviada. Isso aconteceu umas quatro vezes até o ditocujo parar de vez. Ufa! O barulho ensurdecedor, que nem John Cage e Hermeto Pascoal iam gostar, parou. Mas, comecei a ouvir alguma coisa…pi…pi…pi…pi. Não! O pi…pi…pi permaneceu e achei que era um pi…pi…pi diferente – afinal meus sentidos estavam alterados. Não é possível, ninguém merece. Só que, poucos minutos depois, até o pi…pi…pi parou de tocar. Tudo na maior elegância. Nada de gente gritando, nada de fofoqueiros fazendo muvuca na frente da minha moradia, nada de jornalista meia-boca, nada de palavrão e…sem bombeiro bonitão!

Moral da história: por que eu não apertei essa coisa antes?!?

(E agora escrevo com aquele velho e delicioso silêncio de sempre. O silêncio que vou sentir falta, quando estiver em São Paulo. Ô maravilha!)

Do diário “As Aventuras de MSF nos países altos e baixos”.



verborragia de uma fala muda

Bélgica, 19 de novembro de 2009.

Fui até o balcão e fiz a pergunta básica, “parlez vous anglais?” Diante da resposta positiva, fiz a segunda pergunta, desta vez em inglês, “qual a melhor cerveja que você tem?”, “regular or strong?”, “strong”. Ele me mostrou/ofereceu a Duvel, explicando/avisando que era 8,5% alcoólica. Eu assenti sem pestanejar e o homem que estava ao lado arregalou as sobrancelhas. O barman serviu o líquido num copo bonito, de boca larga, bem como eu gosto e falou, também sem pestanejar, “são 3 euros”. Cá estou eu bebendo minha primeira cerveja belga, na Antuérpia.

Ufa!

Foi um dia…emocionante, difícil. Cheguei na Gare du Midi com os ponteiros colando nas 9 horas. Eu não sabia mas Bruxelas me esperava com um lindo dia de sol. Minha mala, embora pequena e com rodinhas, não me permitia longas caminhadas. Eu tinha instruções de como chegar no meu bed & breakfast mas o dono da casa só estaria lá para me receber uma e meia da tarde. Resolvi observar o ambiente, ir ao banheiro, tomar um chá com croissant, encontrar um mapa e entender como sair dali. A “central de informações para turistas” (o que não era bem o meu caso, voilá) se resumia a um posto redondo com dois guichês, cada um com informações diferentes. Peguei o mapa, depois de ter pedido no balcão errado: “você tem que falar com o jovem ali (apontando para suas costas), eu sou o homem velho”. Eu diria “o homem careca”, para resumir a história, eu voltei lá três vezes até conseguir me achar. Embora falássemos inglês, a comunicação era “improvável”, como diz certo teórico da área. Na segunda vez, cheguei dizendo “oi, old man”, ele riu e me reconheceu. Na terceira vez, ele saiu do guichê e foi andando comigo até a escada rolante. Como pode uma estação internacional ter apenas um ponto de informação e, como pode um dos dois funcionários disponíveis abandonar o posto para me ajudar? (Isso não tem preço) Demorei mas entendi a lógica do metrô. Ou melhor, cruzei as informações que tinha: o “como chegar” do bed&breakfast com as sinalizações da estação. Consegui até comprar sozinha o bilhete do transporte. Yes, nós temos bananas!

Peguei o metrô, que anda mais a céu aberto, que dentro da terra. Claro que desci no ponto errado, como toda boa DDA distraída. Quer dizer, verdade seja dita: as dicas do B&B estava erradas/insuficientes. Eu tentei perguntar para um senhor, ele não entendeu meu inglês, ou inglês. Esperei o ‘tram’ parar para falar com o motorista, ele custou a entender, todo mundo dentro esperando, até que ele disse que era preu descer. Obedeci, sem pestanejar.

Depois fiquei feito barata tonta tentando encontrar vivas e acordadas almas que falassem uma pitadinha de inglês. Detalhe: a mala ter rodinhas não foi de grande ajuda. O chão é todo irregular, com paralelepípedos grandes, coisa antiga. A cidade é tão tranquila (ao menos nessa região) que, carro, ônibus, tram e bicicleta dividem/ocupam o mesmo espaço mas nunca ao mesmo tempo. No máximo, o carro anda com o trem no trilho do lado. E eu puxando, puxando, puxando minha mala com alça e com rodinhas…

O primeiro homem que me informou uma rua perto da Rue Verhas parecia estar correto mas quando eu parei na farmácia a mulher grávida (e que só falava francês) me fez voltar e, no ponto de tram/bus, uma muçulmana simpaticíssima (que falava inglês e achou que eu era árabe) me mostrou a rua que eu deveria pegar, a mesma que a mulher da farmácia me fez voltar. Quando atravessei a rua e os trilhos, uma mulher me interpelou falando francês. Queria saber se eu estava bem, se eu tinha achado meu rumo porque tinha me visto para lá e para cá. Não me pergunte como entendi o que ela falou. A comunicação é inexplicável, eu diria.

Lá fui eu. Na esquina seguinte, três homens jogavam conversa fora. O mais assanhado deles me olhou como um brasileiro sem-vergonha me olharia. Eu ataquei: parlez vous anglais? Mais ou menos. Mas o suficiente para não conhecer a rua que eu ia mas para carregar minha mala até um cyber café um tanto chechelento. Ôba! Internet, alguma coisa familiar para acalmar meus sentidos exaustos de tantos estímulos novos + uma noite pouco dormida.

Ledo engano. O teclado francês é coisa do outro mundo e meu curso de datilografia feito no tempo que o computador ainda não era tão popular assim, de repente…caducou. Lá estava eu catando feijão, milho…

Numa hora dessas, o melhor a fazer é dar um alozinho para sua mãe, se você ainda tem uma. Entrei em uma das cabines logo atrás da fila de computadores depois de trocar a mais maluca das comunicações com o turco (ou marroquino?) responsável pelo lugar. Minha mãe não estava. que legal. Apelei para minhas frases tipo “não falo francês mas sou esforçada/educada”: “indiquez pour moi a restaurant, svp”. O cara foi até a porta e apontou para um “asian fast food” do outro lado da rua. Acho que quando você não sabe para onde ir, não conhece ninguém, não tem dinheiro para gastar com taxis caríssimos (ou prefere guardá-lo para livros, cervejas e chocolates), não tem namorado para carregar sua mala, sua mãe não está e você não entende lhufas de nada…o melhor é…comer alguma coisa. Pelo menos você terá uma sensação de “preenchimento” indescritível”. (Agora estou bebendo uma “Vedett” extra blond e o copo é diferente. Cada macaco no seu galho e cada cerveja no seu copo!)

Bom, o atendente falava um inglesinho razoável e eu avisei que era vegetarian e ele perguntou o tamanho da minha fome. De regular para large. Ele sugeriu noodles, o que significa um macarrão menos enroladinho que o miojo misturado com meio ovo mexido, raspas de cenoura, uma dúzia de broto de feijão (literalmente) e umas coisinhas verdinhas que preferi não identificar. Era muito macarrão e um pouco de shoyo, não muito. Convém registrar, o prato era grande e custou 6,50 euros. Não sei bem porque mas, foi dar a primeira garfada e começar a chorar. Aliás, eu sei o porquê: faltava sal na comida. Além do mais, vale muito a pena chorar num restaurante vazio onde ninguém te conhece e você não conhece ninguém. Isso, de algum modo, te universaliza.

Sem lágrimas no reservatório e com o estômago cheio pisei novamente na calçada com minha mala de rodinhas. Eu queria colocar créditos no meu “Vodafone sim card”, já que meu “Orange” não se comunicava com os belgas de jeito nenhum. Já pensou meu desespero se eu só tivesse as (deliciosas) cartas como opção? (ou será que não há nenhum desespero nisso?) Quinze minutos depois, cinco euros jogados fora e mais uma aventura comunicacional com o amável barrigudo do que chamaríamos de “mercadinho da esquina” no Brasil e eu continuava “incomunicável” com o mundo. Que mundo, meu deus do céu?!

arranha-céu

(Liguei para meu coração partido.)

Convém registrar que o rapazinho do inglesinho razoável do asian fast food me ajudou a entender as ruelas “bruxelosas” e eu fui andando com o ploc, ploc das rodinhas no meu ouvido e, cinco minutos antes do combinado, eu cheguei na Rue Verhas 11 junto com meu “hospedador”.

Como será que nos reconhecemos sem nunca termos nos visto? Meio óbvio. Eu parada na frente da sua porta com minhas rodinhas e ele descendo das rodas da sua bicicleta, ambos pontuais.

(os bailarinos do The Song estão jantando na mesa ao lado)

Simpático, baixinho e magricela, Adi é um “quirido”, como diriam os amantes de Nossa Senhora do Desterro. Abre a porta da casa do século XIX (reformada em 1994) e carrega minha mala que parece mais pesada que ele, ainda que a dica de ouro do Dauro tenha sido considerada. A casa tem vários andares e eu esperei no térreo, na grande sala com cozinha e quintal,  enquanto ele limpava meu quarto. Esperei feliz da vida, brincando com seus três adoráveis gatos, todos ronronando e me dando atenção. Como diria Garfield, “é difícil ser gostosa, mas alguém tem que ser”, não é mesmo?

frente da casa

Ginger (ciumenta, precisa de atenção só para ela)

Socks (carinhosa, respeitosa, ronrona, ronrona...)

(Clarence não quis ser fotografada, é tímida, super na dela mas MUITO afetiva se você faz contato)

Adi me avisou que o quarto estava pronto. Subimos quatro lances de escada (ele carregou a mala, lógico) até chegarmos no meu agradabilíssimo quarto, com mezanino e tudo o mais. Nada como ser visitante numa “verdadeira” casa belga. Depois de me passar todas as “instruções” (como abrir e fechar a porta) e me perguntar que horas queria meu café da manhã (café ou chá? chá), ele me deixou a vontade para fazer minha bagunça de praxe.

Escovei os dentes e parti em poucos minutos para pegar o trem das três para Antuérpia. Consegui encontrar o caminho, consegui um falante de língua inglesa no ponto e lá fui encontrar o Carlos Garbin, bailarino brasileiro da companhia Rosas!

vista do trem

da janela do trem

mais arranha-céu

estação na Antuérpia (uau)

na frente do teatro

a imagem não tem edição

teatro

pronta para assistir The Song

entrevista com a anne teresa de keersmaeker

The Song

Muitas aspas, reticências, exclamações, interrogações e sem ponto final



No escuro

no escuro

Essa, com certeza, será daquelas experiências que ficará para sempre na categoria das “inesquecíveis”. Afinal, não é todo dia que se janta num lugar absolutamente escuro sendo servida por garçons…cegos! Aliás, quem foi que disse que se come com os olhos?

Pois é exatamente esse o diferencial do restaurante Dans Le Noir? que tem endereço certo em Paris e Londres (em breve, filiais em Barcelona e Nova Iorque). Se você gostou da ideia, a primeira coisa a fazer é reservar o seu lugar via e-mail ou telefone com antecedência e aguardar pela confirmação. Foi o que fiz. Esperei, curiosa, pelo compromisso mais esperado da semana.

Ao chegar no lugar, fomos, eu e meu amigo, recepcionados por uma moça que falava inglês com forte sotaque francês. Ela nos orientou a deixar nossas bolsas, casacos e celulares num armário com chave logo do nosso lado. Entregamos nossos cartões de crédito e, enquanto nossa mesa era preparada, fomos levados para um bar lounge, onde bebericamos e escolhemos o menu entre carne, peixe, vegetariano ou surpresa. Os cardápios têm preço fixo e é possível combinar e selecionar as seguintes opções: entrada, bebida, prato principal e/ou sobremesa. O detalhe é que você não sabe mais nada a não ser qual menu escolheu, ou seja, não sabe que tipo de carne, com que acompanhamento ou  molho.

Eu estava ansiosa, meu amigo também. Após uma meia-hora, resolvemos perguntar quanto tempo ainda ficaríamos no lounge e a moça foi checar se nossa mesa estava pronta. Estava. Voltamos para o hall de entrada do restaurante, onde nos juntamos a uma outra dupla. Fomos orientados a formar uma fila, braço direito no ombro direito da pessoa a nossa frente. Fomos, também, apresentados ao Takashi, o nosso garçom, que nos deu as boas vindas e algumas instruções do tipo: caso quiséssemos fazer algum pedido extra ou perguntar algo, deveríamos chamá-lo pelo seu nome. Nos apresentamos e ele abriu uma cortina por onde passamos e entramos, um atrás do outro, num corredor escuro.

A sensação é indescritível. Ser guiado por um cego tem um impacto enorme no sistema sensório-motor de seres que se orientam, sobremaneira, pelo visual. Essa inversão de condição tem conseqüências radicais para os que enxergam e para os que não enxergam. Esse corredor não era totalmente escuro, mas quando entramos no ambiente do restaurante, passando por uma porta, não dava para enxergar absolutamente nada. Nem o seu nariz. A escuridão era total e irrestrita. Nem se ficássemos ali 3 horas, não daria para enxergar nadica de nada, nem um vulto, num uma sombra, como quando acontece no escuro do quarto de dormir. A ausência de luz era completa e eu estava….cega.

Takashi nos colocou, um a um, em nossos lugares. Ele sabia como direcionar sua voz e eu sabia quando ele falava comigo. Pegando no meu braço, ele indicou onde havia uma cadeira para eu me sentar. Lá fui eu. Tateei, puxei e me acomodei. Agradeci o fato de não ter nenhuma bolsa, casaco ou celular comigo. Sentei e passei a mão ao redor. Percebi que havia uma mesa na minha frente. Chamei pelo meu amigo, estava com medo de ficar sozinha no escuro e sem ninguém conhecido por perto. Ele estendeu a mão pela borda da mesa e minha mão encontrou a dele. Ufa, ele estava na minha frente.

Notamos a existência de dois copos, grandes e pesados. Takashi trouxe o vinho e disse ao meu amigo que tomasse conta dele. Para facilitar, e compreendemos o porquê disso imediatamente, a taça era, na verdade, um copo redondo e largo. Meu amigo disse que iria me servir e eu estendi o copo na minha frente. Mas, como ele iria saber aonde estava o copo? Com a outra mão, eu tentei encontrar a garrafa e ele fez o mesmo, tentando encontrar meu copo. Notei que ele enfiou o gargalo da garrafa dentro do corpo e virou um pouco. Disse que já tinha me servido e eu coloquei o copo na boca mas a bebida não veio. Coloquei um dedo dentro e tinha apenas um tiquinho mas a sensação que ele tinha era de ter enchido. Tentamos mais uma vez e ele derramou tanto que quase caiu para fora. Rimos. O vinho era delicioso. Preferimos deixar a escolha para o chef (que por sinal não era cego), de acordo com o cardápio de peixe que solicitamos (avisei antes que não comia pimentão). Percebemos que o ambiente estava extremamente barulhento e que as pessoas falavam alto demais para uma experiência tão intimista quanto esta. Mais tarde, soubemos que as pessoas, para compensar a ausência da visão, acabam falando mais alto que o normal, além, suponho eu, dos efeitos que as bebidas geram.

Logo depois, Takashi voltou e avisou que serviria nossas entradas. Colocou meu prato na mesa, sempre falando comigo e dizendo o que faria e depois o do meu amigo, nos desejando “bom apetite”. O cheiro era delicioso. A primeira iniciativa que eu tive foi a de tatear o prato com a mão para saber onde ele havia sido colocado exatamente. Ok, bem na minha frente. Percebi que o prato era grande e quadrado, talvez para facilitar a identificação de sua posição porque, caso fosse redondo, ficaria mais difícil de localizar sua relação com o espaço. Encontrei o garfo e “às cegas” tentei garfar alguma coisa. Coloquei o ditocujo na boca – nessa hora meu amigo brincou “será que vou encontrar minha boca?” – e…vazio. Repeti o procedimento umas cinco vezes e o garfo vinha sempre vazio. Ao menos, eu tinha conseguido acertar a boca. Saquei que minha estratégia não estava funcionando. Assim sendo, coloquei os dedos no prato até que eles encostassem em alguma coisa. Identifiquei algo cremoso como um molho e uns pedaços de alguma comida. Empurrei para o garfo e, finalmente, experimentei a primeira bocada, lambendo depois os dedos. Uma delícia! Descobri uns camarões empanados, também muito saborosos, e fiquei imaginando qual seria a disposição das coisas. Como o procedimento de colocar a mão e os dedos no prato funcionou – ainda que qualquer mãe torcesse o nariz (no escuro não ia mesmo dar para ver o seu nariz torcido) – eu continuei mais um pouco assim até que…abandonei de vez o garfo. Estava comendo com as mãos! Era mais eficiente e eu podia sentir texturas e temperaturas, antes de colocar na boca. O guardanapo de pano, imprescindível, é grande e aderente, o que deve ser proposital.

Perguntei ao meu amigo, que é uma pessoa educada e muito contida publicamente, como ele estava se virando. Ele riu, disse que estava, como eu, comendo com as mãos e bebendo o vinho no gargalo. Eu gargalhei. A experiência de comer no escuro parecia ser psicologicamente libertadora também! Apenas lamentei quando percebi que tinha comido toda a entrada. De tão gostosa, eu queria aproveitar tudo até o fim e anunciei em bom tom: vou lamber o prato! Eu não vi mas acredito que meu amigo tenha feito o mesmo.

Dali a pouco, Takashi voltou perguntando se poderia retirar os pratos para servir o principal. Prontamente concordamos e eu, ainda reforcei, fazendo “sim” com a cabeça (risos). Muito melhor do que a gente, Takashi foi direto, preciso e pegou os pratos, um de cada vez. Sempre se dirigindo atenciosamente a um e ao outro, ele nos serviu o principal. Como cheirava bem e eu era capaz de sentir o calor da fumacinha! Descobri que meu corpo estava melhor adaptado à situação e já reconhecia melhor as distâncias entre mim e o prato, o copo e a garrafa. Tentávamos adivinhar o que comíamos e, pelo menos eu, tinha esquecido completamente da existência do garfo. Lamber os beiços e os dedos nunca foi tão bom. Reconheci um pedaço de beringela e fiquei felicíssima. Os pedaços de peixe estavam suculentos e cabiam inteiros na boca. Com certeza, devia ser premeditado, já que usar a faca não seria muito recomendável para seres sub-desenvolvidos-predominantemente-visuais. Fiquei curiosa para saber a cor das comidas que ali estavam dispostas e aposto que estavam visualmente bonitas (ao fim da experiência, é possível ver fotos do que foi comido).

Melhor que isso eram os cheiros, as texturas e os sabores. Só provando para saber. Lambi o prato de novo, lamentando terrivelmente que estivesse terminado. O gole de vinho cresceu na minha boca. Entre uma garfada, digo “dedada” e outra, comentávamos sem parar o que sentíamos. Cada conquista motora do nosso corpo era apreciada em detalhes. Peguei a garrafa de vinho e notei que tinha acabado.

Takashi perguntou se queríamos mais alguma coisa. Arrependi-me amargamente de não ter o costume de comer sobremesa e prometi que voltaria outra vez só por conta disso. Não me dei conta de quanto tempo ficamos ali mas me sentia expandida, como se houvessem orelhas por todo o meu corpo e como se dedos saíssem dos meus olhos. A negritude era agora leve e eu estava segura e confortável sendo guiada pelo meu querido garçom cego, um imigrante do Japão. Ele nos ajudou a levantar, nos orientou em que direção girar o corpo e quando deveríamos andar. Enquanto caminhava, podia ouvir as pessoas ao redor mas não esbarrei em nenhuma delas, nem em nada. Meus passos estavam diferentes. Eu tinha outra confiança no mundo.

Cruzamos a porta, onde pude ver que estava escrito algo como “absolutamente proibido ultrapassar essa porta sozinho”. Estávamos de volta à penumbra do corredor e, a seguir, diante da cortina que nos devolveria ao mundo dos que precisam de olhos. Agradeci com devoção à experiência ao Takashi e cruzei a cortina.

Nunca mais fui a mesma.



a vida como ela é em Paris (recorte 2)

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Essa senhora passou por mim quando eu ia para o metrô, perto da Place St. Michel. A tarde estava quente, muita gente andando pelas ruas mas ela me chamou atenção. Tinha uns 70 anos ou parecia ter.  Vestia um short e tinha as pernas muito brancas. Esmalte vermelho nas unhas curtas, baton vermelho na boca murcha. Butuca de cigarro num canto. Olhar ao mesmo tempo perdido e certeiro. Ela se destacou tanto da pequena multidão que resolvi voltar para tentar fotografá-la. Parei ao lado, numa parte menos tumultuada e me coloquei a postos. Esperei-a passar mas ela não apareceu. Rapidamente, voltei ao ponto onde nos cruzamos e vi que ela estava se dirigia a uma das muitas mesinhas ao ar livre. Dessas que ficam na frente dos cafés e restaurantes. Encostei do lado de um grande vaso com a máquina na mão. Havia um homem sentado, tomando um café e comendo algo. Ela calmamente se sentou na frente dele. O homem ficou arregalado e foi ficando cada vez mais. Ela acendeu um cigarro comprido e marrom. Mexeu nas coisas em cima da mesa. Tentou acender o cigarro de novo. O homem não acreditou. Ela continuou ali, como se nada fosse nada. O homem foi embora. Ela mexeu o café e tomou. Ficou ali o tempo que quis.

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