maíra spanghero


Beyoncé e De Keersmaeker: entre o plágio e o sampler
12/10/2011, 1:08 PM
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Imagine a surpresa que a renomada coreógrafa belga Anne Teresa De Keersmaeker teve ao receber uma mensagem vinda do Facebook perguntando se ela havia vendido suas coreografias Rosas danst Rosas (1983) e Achterland (1990) para o circuito comercial, já que elas estão presentes no novo videoclipe da cantora Beyoncé, o Countdown! Na nota divulgada sexta-feira passada pela assessoria da diretora da companhia Rosas, ela não foi consultada, não forneceu nenhuma autorização e solicitou que o advogado da companhia entrasse em contato com o agente de Beyoncé. Se obras de arte têm sido frequentemente referência para outros trabalhos, seria correto a coreógrafa acusar a estrela pop R&B por plágio?

O acontecido levanta uma nuvem de perguntas e questões consideravelmente relevantes como, por exemplo, as relacionadas com autoria, cultura digital e indústria cultural. Atualmente, computadores e internet juntos permitem, com uma facilidade técnica incrível, aquilo que é da natureza de toda cultura que se pretende manter viva: a transmissão e a replicação das informações que estão organizadas de um modo tal que o diferencia dos demais. Acontece que, no ato de replicar e por encontrar um novo ambiente (um cérebro, uma mídia) a informação se altera, se recombina e se transforma. No ambiente digital, o sampler é o arroz com feijão. Todo mundo que quiser pode acessar informações alheias e compartilhar – um modo politicamente correto que o Facebook encontrou para o velho e sorrateiro copiar e colar. No corpo e em processos de aprendizagem o correlato do copy/paste talvez seja a imitação, procedimento potente e eficiente para aprender coisas novas, não só na espécie humana.

A polêmica vem dividindo opiniões. Há quem diga que a notícia seja um sintoma da cultura contemporânea, muitos gostaram da novidade, outros estão convictos de que se trata de cópia descarada com fins lucrativos e outros tantos observam o fenômeno com curiosidade. Mas o que pensa a coreógrafa belga a esse respeito?

“Quando eu vi o vídeo, fiquei chocada pela semelhança do clipe de Beyoncé não apenas com os movimentos de Rosas danst Rosas, mas também, com os figurinos, o cenário e até as tomadas do filme de Thierry De Mey. Obviamente, Beyoncé, ou o diretor do vídeo clipe Adria Petty, roubou muitos pedaços de cenas do filme, mas o vídeo clipe está longe de mostrar todos os materiais que Beyoncé pegou de Rosas em Countdown. Há muitos movimentos tomados de Achterland mas eles estão menos visíveis por conta na diferença estética”, declara a coreógrafa. Que a cópia é evidente ninguém nega, mas a visibilidade que o material copiado teve (ou seja, dança contemporânea) foi a jamais sonhada. Só que isso só aconteceu por conta da repercussão da denúncia e, especialmente porque a “acusada” é uma megastar do que propriamente pela fama da dança contemporânea, verdade seja dita.

De Keersmaeker conta estar ciente disso ao dizer que, “de um lado, estou contente que Rosas danst Rosas possa ter alcançado uma audiência em massa que uma apresentação de dança poderia nunca conseguir, mesmo com toda sua popularidade no mundo da dança desde dos anos 80. E, Beyoncé não é a pior copycat, ela canta e dança muito bem, e tem bom gosto! De outro lado, há protocolos e consequências para tais ações que eu não posso crer que ela e seu time não estivessem cientes”.

O evento não tirou a coreógrafa do sério, “pelo contrário, me fez pensar algumas coisas como, por que leva 30 anos para a cultura popular de massa reconhecer um trabalho experimental de dança? Isso significa que 30 anos é o tempo que leva para se reciclar performance experimental non-mainstream?”. E o que dizer de Rosas danst Rosas? “Nos anos 80, a coreografia foi vista como uma afirmação do poder da mulher, baseado numa postura feminina na expressão sexual. Agora que assisto a Beyoncé dançando, acho prazeroso mas não vejo nenhuma ponte com isso. É sedutor em termos de divertimento consumista”. E só.

No fim de sua declaração, De Keersmaeker chama atenção para uma coincidência engraçada. Beyoncé gravou Countdown grávida de quatro meses. Em 1996, na época em que a videodança de Thierry De Mey ficou pronta, a coreógrafa também estava grávida de seu segundo filho. “Então”, finaliza ela, “eu só posso desejar para ela a mesma alegria que minha filha trouxe para mim”.

Clique aqui para ver o video editado pela Studio Brussel.

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Beyoncé copies choreographies of Rosas in her new videoclip “Countdown” // Beyoncé copia coreografias de Rosas em seu novo videoclipe “Countdown”
08/10/2011, 4:34 PM
Filed under: bruxelas, dança | Tags: , ,


American queen of R&B Beyoncé has copied in her new videoclip some excerpts from Anne Teresa De Keersmaeker’s choreography Rosas danst Rosas (1983). A rainha americana Beyoncé copiou em seu novo videoclipe alguns trechos da coreografia Rosas danst Rosas (1983) de Anne Teresa De Keersmaeker.

Almost identical fragments of the film Rosas dans Rosas made by Thierry De Mey in 1997 are used in the videoclip. Some dancematerial from the film Achterland (1990) are also used. Rosas hasn’t given any authorization for this and the company has asked her lawyer to contact Beyoncé’s management. Fragmentos praticamente idênticos do filme Rosas danst Rosas realizado po Thierry De Mey em 1997 são usados em seu videociple, o que inclui inclusive os figurinos. A companhia belga Rosas não foi consultada, não forneceu nenhuma autorização e solicitou que seu advogado entre em contato com o manement de Beyoncé.

Pictures in attachment are taken from Countdown, and make the resemblance very clear. As imagens, tiradas de Countdown, deixam as similaridades bem claras.


Watch Countdown Assista Countdown

Watch an extract of Rosas danst Rosas Assista um trecho de Rosas danst Rosas

[Press release from Johanne de Bie/Press & Communication/Rosas]



um verbete para Matadouro

1. Um bando. E bastaria essa palavra.

Espécie de agrupamento que utiliza estratégias de resistência, treinamento bélico e camuflagem para definir sua existência em torno de um comum. O palco vira campo de combate. O bando tem um bonito jeito de entender seus membros: singulares e ímpares. Eles possuem um laço denso que os mantêm unidos, muito unidos. O bando é uma reunião de incomuns em função de um comum. É um Cangaço contemporâneo. Outras espécies vivas também formam bandos. E se camuflam. Lutam para sobreviver.

Esse bando é formado por Alexandre Santos, Andrez Lean Ghizze, Cipó Alvarenga, Fábio Crazy da Silva, Fagão, Izabelle Frota, Jaap Lindijer, Jacob Alves, Josh S., Layane Holanda e Marcelo Evelin – embora fique difícil dar nome aos bois durante o espetáculo. Eles usam máscaras: folclore, proteção, disfarce e figurino de guerra. As máscaras identificam (pertencimento a um grupo ou causa), camuflam (metade bicho, metade homem) e preservam as identidades (sabemos que pertencem a algo mas não conhecemos seus rostos). Remetem, indicam, citam, traduzem.

2. Se eu pudesse escolher três palavras para Matadouro, eu escolheria: resistência, resistência e resistência. Porque é isso que o bando faz, sem descanso: resistir, resistir e resistir. Imaginei diferentes soluções visuais da palavra para representar no papel (ou numa tela qualquer) o que Matadouro faz no palco. Uma delas: duas linhas e um círculo feito com a palavra “resistência”. Outra: escrever incansavelmente com máscaras. Mais uma imagem seria a inscrição da palavra “resistência” sobre ela mesma, tantas vezes a ponto de camuflá-la. Ou de furar o papel. É a brecha para despistar (d)o inimigo.

Resistir

(esse intransitivo)

resistindo.

Isso significa, também, verbos no gerúndio (ação em andamento). Dança é quando e depois (Helena Katz). Testando/confiando/construindo, também, (n)a capacidade do público (do outro) em resistir – não desistir. As facas estão afiadas a toda velocidade, a batida tribal revela intenções. Os corpos não sucumbem, não cedem e conservam-se firmes.

O bando corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre, corre. Em círculos.

Fazer o corpo resistir torna o corpo resistente. Torna uma ideia resistente.

3. A resistência tem se manifestado como um traço significativo de uma parte da dança contemporânea brasileira. Matadouro pode até sentir-se só ou sem amigos imediatos mas o bando não está só. Os bandos-irmãos estão correndo por aí, cada qual ao seu modo.

São partes da mesma família: Matadouro (Marcelo Evelin / Demolition Inc. + Núcleo do Dirceu), Pororoca (Lia Rodrigues Companhia de Danças)  e SIM – ações integradas de consentimento para ocupação e resistência (Cena 11 Cia. de Dança). São três danças cuja condição de existência é a ação integrada de um grupo em prol dessa ação integrada de um grupo, sem deixar de ter espaço para expressões singulares individuais. Em todas as três obras não se vê a necessidade de anular diferenças. Um bando é composto por laços que agrupam e por rotas de fuga. Não há necessidade de que todos se vistam com as mesmas roupas e adereços mas que todos vistam a mesma ideia, considerando sua própria anatomia – e que ela fale sobre isso e seja funcional. Isso não é apenas visível nos figurinos, mas também, nos movimentos e gestos, na composição, na coreografia.

Quando assisti Matadouro, no SESC Consolação em São Paulo, senti uma força muito poderosa vinda do bando ao ver a bailarina ______, única mulher do grupo, se sentir cansada (ou será que as pernas lhe doíam? e/ou…? ). O que ela faz? Se retira silenciosamente do círculo grande e forma um menor, dentro do anterior – o que lhe permite um raio menor a percorrer, diminuição de velocidade e proteção do bando. Desse modo, parece que uma outra estratégia para continuar resistindo seria a interrupção espamódica/esporádica do ato de correr com um outro movimento, como dar um mortal.

Essas danças são elas mesmas o próprio ato da resistência – não uma fala ou legenda sobre ela. O assunto não está separado do modo de dizê-lo: seu dizer já é. Isso implica investigar estratégias de coabitação interna (em diferentes níveis), ações de sobrevivência e um entendimento de pertencimento e coletividade em sua prática.

(versão pocket) Eles correm. Correm, correm, correm. Resistem, resistem, resistem. Testam testam testam nossa capacidade de resistir com eles. Eles correm, resistem e precisam de nós. Matadouro – mais um encontro de mãos dadas de Marcelo Evelin com o Núcleo Dirceu (ele mesmo um deles) – é um trabalho sobre resistência. Treinamento militar em tempo real. Tudo é verdade: engajamento, coletividade, camuflagem (recurso de animais e guerrilheiros). A iluminacão, muito bem-feita, é do tipo gambiarra eficiente. Estratégias para resistir: insistir no tempo, no aprimoramento técnico do gesto disciplinado, na alteração por breves períodos (e de forma quase cíclica) o movimento que se estende no tempo. Matadouro tatuou uma marca em mim.