maíra spanghero


HIPERTEXTO PARA RÓTULO DE ESPETÁCULO DE DANÇA

 

Foto: Tiago Lima

Crítica premiada em primeiro lugar no edital de Crítica de Arte da Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB) em 2012.

Por Maíra Spanghero

As luzes se acendem e a música Blue Moon começa. Há todo um clima no ar quando o rapaz entra, fazendo charme, uma mão em cada bolso da bermuda. O cenário é artificial como um filme de Hollywood e feito com caixas de arquivo coloridas. Vestido de Clark Kent o rapaz não é Neto Machado. É, na verdade, um super herói disfarçado. No plano conjunto ele está em composição com o todo, quase uma fotografia. Enquadrado em plano aberto, da cabeça aos pés, parece um personagem de história em quadrinhos, quase imóvel. Em um close vemos seus lábios cantarem junto com Diane Draw. Com o passar do tempo um recorte em plano americano revela que parte de seu corpo vai ganhando movimento passo a passo, até se tornar um desenho animado antes de ser animado. O início de KODAK, o mais recente trabalho concebido pelo artista curitibano, integrante da Couve-Flor Minicomunidade Artística Mundial, revela um interesse translúcido pela sétima arte!

Lento e pausado, com música instrumental ao fundo, Clark Kent/Neto Machado decupa – corta em pedaços – uma ação ordinária e fluida, como a de desabotoar uma camisa. O movimento é engasgado, mecânico, linear e fragmentado. Como nas centenas de fotografias de Eadweard Muybridge (1830-1904), pioneiro dos estudos visuais da locomoção humana e animal. Ambos estudam o movimento com um procedimento comum: o stop motion, técnica que consiste em congelar uma ação quadro-a-quadro para que, quando colocados um após o outro num dado intervalo de tempo, nos causem a ilusão de movimento. A diferença entre eles é que Muybridge divide o movimento dinâmico usando dispositivos mecânicos para capturá-lo. Para Neto, o cinema seria, então, “a ilusão do movimento enquanto KODAK é a ilusão do não-movimento, que sempre existe, por menor que seja, em um corpo vivo”. Como é sabido, essa ilusão só é possível devido ao fenômeno conhecido por “persistência da retina”, característica que nossos olhos têm em continuar percebendo cores e imagens mesmo que a referência exterior já tenha desaparecido. Goethe é um dos primeiros a se interessar por isto em seu Tratado das Cores, de 1810.

A animação stop motion tem uma história antiga com o cinema e foi frequentemente usada para mostrar objetos se movendo como se fosse mágica. A primeira experiência é creditada a Albert E. Smith e ao ilusionista e diretor britânico J. Stuart Blackton por The Humpty Dumpty Circus (1897), no qual acrobatas e animais de brinquedo são trazidos à vida. A mesma técnica foi usada no clipe da banda ‪The White Stripes, o famoso Fell in Love with a Girl, uma das referências explícitas do espetáculo KODAK.

O procedimento, que surgiu no solo anterior de Neto (MOODE – 2010), trouxe consigo todo um campo temático relacionado com séries televisivas e cultura pop japonesa (Jaspion, ChangeMan, Tokusatsu) dos anos 80 em diante, com questões de identidade e gênero que passam a ocupar a pauta de inúmeros debates e setores da sociedade, com brincadeiras infantis e por aí vai. Faz todo o sentido. Afinal, o que esperar de um menino nascido em 1985, como ele mesmo diz, “um piá de playground, que jogou bola na garagem do prédio e aprendeu a dançar com Michael Jackson, gravando e vendo os seus clipes em videocassetes?”

CORTA!

Ação! O carro entra e foge em disparada. Ouvem-se gritos. Bombas explodem. Prédios inteiros são destruídos. O cenário é devastador. O monstro está à solta. Por fim, o herói chega para salvar o mocinho em perigo (“eu sou o super herói mas eu o desejo”). Será um homem? Será uma máquina? Ele se confunde com o King Kong. O herói ensaiou lutas e golpes sob technicolor, “atirou” imagens com seu super projetor portátil de raios lasers, foi atingido, morreu, mas voltou vivo depois do comercial. Pois que seja, visto que o mundo de KODAK não é feito para durar como as fotos. Tudo se constrói e se destrói com a mesma facilidade. É um mundo de plástico, que pode ser reconstruído e transformado, como as peças de um Lego.

A marca KODAK foi criada por George Eastman em 1854. A partir de 1888, ele passa a vender câmeras portáteis com rolos de filme de cem poses e cria o famoso slogan: “você aperta o botão e nós fazemos o resto”. É um nome que nada significa, mas que pode ser falado em qualquer língua. Por que dar ao nome do espetáculo uma patente conhecida? O espetáculo é um produto para brincar? Ele produz imagens que nos causarão satisfação e momentos tão bons como os que gostamos de fotografar? Ele nos faz lembrar de nós mesmos e nosso passado? É uma peça de colecionador? Ou será pura publicidade? Você decide o(s) foco(s), mas eu garanto: é, no mínimo, muito divertido.

KODAK é um espetáculo de dança para crianças, adolescentes e adultos. A classificação é livre, mas a indicação é obrigatória.




6 Comentários so far
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Maira, gostei muito, como outros de teus textos! Parabens pelo premio. Hipervínculo-hipertexto foi uma maneira de trazer essos elementos que estao presentes no Kodak!
Um parabens também pra Neto e seu equipe de trabalho! Porque esse espetáculos sem essas luzes…!!! maravilhosas!

Comentário por Laura

obrigada, querida! quero ler o seu!!!! parabéns procê tb!!! beijos

Comentário por mairas

Querida, parabéns pelo prêmio e pela crítica, que traz com ela a poética da arte derramando informações relevantes para todos. Grata pelo deleite. Que venham muitas delas e muitos prêmios.

Comentário por Cida Linhares

Obrigada, Cida! Acho que ganhei uma leitora! rs. beijos

Comentário por mairas

Uau! Tomara que o espetáculo esteja à altura da crítica. Um texto que instigou minha imaginação e que didaticamente me informou sem ser pedante. Fiquei com vontade de ver KODAK.
Parabéns, Maíra. Adorei. Vai nessa.

Comentário por Raul Rachou

Só podia ser você, meu mais leal amigo! Obrigada. Sua opinião é muito importante para mim. Quem adorou foi eu!!!!!

Comentário por mairas




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