maíra spanghero


Vida de motorista
05/03/2012, 2:36 PM
Filed under: literatura barata, reportagem afetiva | Tags: , ,

Depois de 41 anos andando no colo, de velocípede, bicicleta, carona, trem, ônibus, metrô e taxi, agora eu “ando” de carro há um mês. Sinto que minha vida, digamos assim, melhorou. Ao menos essa parte administrativa do dia-a-dia – supermercado, cabeleireiro, restaurante, farmácia, praia – facilitou muito. A vida moderna das cidades, com seus shoppings, estacionamentos e ruas, é feita para os carros. Por um lado me sinto mais segura do que andando a pé, por outro os riscos e perigos do trânsito soteropolitano talvez até me deixem menos segura do que eu penso. Notei que estava pegando o carro até para ir até o posto de gasolina, pouco mais de uma quadra para baixo da minha rua, tomar café e comer pão de queijo no 24 horas deles. Primeiro, considerei meio absurdo e sedentário. Depois, fui me dando conta de que, ao caminhar essa trecho, como tantas e tantas e tantas vezes eu fiz ao longo deste um ano que moro aqui, eu encontro calçadas: destruídas, com carros estacionados, cocô de cachorro e lixo. Chegando ao fim da minha rua, para atravessar a Rua Oswaldo Cruz de uma margem para outra, é preciso andar até a sinaleira e esperar eternos 10 minutos. Dependendo do horário, o que significa o dia todo em Salvador, o sol e o calor são insuportáveis. Não há árvores ao longo do trecho, apenas uma do lado direito. Foi assim que me dei conta de que meu corpo sabe que é muito mais agradável ir de carro, no ar condicionado e, se quiser, com som ligado. Mesmo que eu tenha que esperar, é mais confortável. Com isso, cheguei a constatação (óbvia) de que todas minhas tentativas de ser uma pedestre nessa cidade (e não estou falando de pegar o carro para ir caminhar num curto trecho da orla, nas imediações da Amaralina até _____, onde tem estradinha para pedestre e bicicleta) eram tão incômodas – que perdia mais a vontade a cada tentativa. É fato: as cidades não tem mais espaço para os caminhantes e sim para os automóveis. Tudo é mais fácil de carro. Até ficar presa no engarrafamento é mais legal se você está de carro, principalmente, se estiver um calor insuportável. Caso contrário, é possível que você esteja num veículo público sujo, como é o caso de Salvador, e com alguém escutando uma música de gosto duvidoso numa altura descabida. Sempre peguei ônibus para trabalhar, estudar e me divertir. Conheço bem o ritual, os problemas, o custo x benefício, os perigos, o tempo gasto quando se é passageiro. E, como diz a piadinha, tirando o motorista e o cobrador, o resto é tudo passageiro. Andar de ônibus na Europa, pelo menos nos lugares em que andei, foi melhor que aqui. Em Londres era excelente. Tudo funcionava bem, tinha linhas 24 horas, segurança e um serviço telefônico, também 24horas, aonde você consulta rotas e trechos. Tudo organizado e lógico. Aqui também deve ter sua lógica, mas eu ainda entendo pouco dela. Por isso, redobro a atenção e evito horários muitos tensos para por o pé na estrada. Hoje, um ônibus quase bateu na frente do meu carro e, o pior, a culpa seria minha (e do Estado pela má prestação de serviços). Ele freou e eu freei, meio segundo depois. Não chegou a sujar a pista com o pneu porque eu estava devagar, mas podia ter batido. Eu estava entrando numa pista secundária, saindo do Ceasinha, no Rio Vermelho. Não tinha sinalização. Eu olhei para um lado e estava tudo vazio. Fui acelerando e olhando para a esquerda e o ônibus freou, o motorista levantou os braços reclamando e, eu, com os olhos arregalados, repetia desculpas. Achei que ele vinha rápido demais para aquela situação. Ainda bem não aconteceu nada mais grave. Ali está tudo uma bagunça com a mudança das lojinhas para o galpão ao lado. É tipo um salve quem puder, tudo muito confuso, sem sinalização, sem suporte da policia do trânsito. É lamentável que nossas cidades não tenham um planejamento que inclua o pedestre, a bicicleta, o patins, o skate em suas faixas de tráfego. Isso diminuiria o tráfego de veículos, a poluição e os custos com saúde, na medida em que menos sedentarismo implica em menos doenças. Aumentaria o contato humano, também. Junto com isso, se os taxis fossem mais baratos, mais pessoas poderiam utilizá-los com maior constância, deixando seus carros na garagem e, consequentemente, baixando a circulação de veículos. Algumas cidades por onde passei ou morei conseguiram incluir o passo e a pedalada como uma medida respeitável de deslocamento. No Brasil, ainda gostamos de sofrer e sonhar com o financiamento (por sinal, caríssimo mas dissolvido em suaves prestações) de um carro novo. “Quem anda de ônibus”, como ouvi de uma passageira no trecho Ondina-Rio Vermelho (na linha Villas do Atlântico), “só anda porque não pode comprar um carro. Se eu pudesse, não estaria aqui”. É melhor sonhar em ter um carro do que exigir um transporte público PAGO respeitoso e formas seguras de transporte alternativo. Em Nova Iorque é brega ter carro, o chique é andar de botas!


1 Comentário so far
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Acabei de voltar de Londres e é muito triste cada retorno encontrar Salvador e seus péssimos serviços e falta de educação. Lá uma das coisas que mais me admiro é justamente o transporte público. Todas as linhas acessíveis, pontuais, cidade limpa…

Comentário por Edu O.




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