maíra spanghero


o dia em que acionei o alarme de incêndio

pressione a bolinha preta

Londres, 16 de janeiro de 2010.

Nossa, tanta coisa aconteceu. Pensei tantas frases que queria escrever. Que intensa vida mental eu tenho! Vou começar por ontem. Encomendei meu duvet (não sei antes ficar em dúvida se deveria ou não comprar um de penas de ganso, já que me imagino ativista dos direitos dos animais…talvez eu não seja lá isso tudo…) e encomendei também um tampão de ouvido tamanho pequeno já que o médio chegou e me incomodou. Estava tão de saco cheio desse barulho da caixa de incêndio desregulada, mas tão de saco cheio que desejei comprar uns três modelos diferentes de tampão de uma só vez! Inclusive daqueles super avançados para bateristas não ficarem surdos, sabe?

O tempo corre rápido e a produção da vida toma um tempo danado! Quase não consigo me concentrar na pesquisa, embora ela esteja sempre nos meus pensamentos. Isso me incomoda, minha dispersão, ao mesmo tempo, que me vejo tão cheia de ideias! Poderia ter trabalhado se não tivesse saído para encontrar o Charles. Levei os regalos para ele. Nos encontramos na lojinha da parte moderna da National Gallery e, claro, não resisti e comprei um livrinho sobre o número de ouro e um guarda-oyster.

Depois fomos no ICA (Institute of Contemporary Arts) e sempre acho meio meia boca as exposições de lá. Ou, acho que não me conecto muito mas gostei de um rato de pelúcia que respirava, deitado no chão, enquanto dormia. Mas o que gosto mesmo é daquela lojinha, que é pequenininha e cheia de livros ótimos, cartões incríveis, DVDs e outras coisinhas mais…comprei outro guarda-oyster, aliás, dois, e uma caneta. Tomamos um drink e fomos andando até o Soho. O Charles ia me levar num restaurante belga, o Belgo, já que eu me mostrei muito animada com o halp pint de Leffe, coisa que nunca tinha visto por aqui. Aliás, só vendem half porque é forte e não dá para beber quente (coisa que os ingleses adoram).

Comemos, bebemos e conversamos bastante. Adoro as histórias dele, adoro! Me lembra o tempo do Mário Fofoca. E ele tem uma memória incrível para detalhes. Tenho vontade de escrever coisas que ele conta. Quem sabe…um dia…

Caminhamos até o metrô Tottenham Court Road e peguei minha northern-line-rumo-south-london para Balham. Chegando em casa, perto das dez e meia, e nauseada com o barulho da fire box, eu tive um ato impulsivo, tipo sem-querer-querendo…pressionei de leve a superfície do alarme e a porra imediatamente disparou um barulho dos infernos!!! Subi as escadas correndo (feito criança) para ninguém descobrir que tinha sido eu. O ruído era ensurdecedor e apitava em todos os flats da casa (são 4 ao todo). Liguei para o Charles e falei baixinho “acho que fiz uma besteira”. Ele respondeu, “fica quieta, apaga a luz, que alguém vai ligar para avisar e alguém virá resolver o problema, se alguém bater na sua porta, atende e diz que a dona não está e que você é prima dela”. Ok.

Me fechei no quarto com meu computador e fui responder email para tentar me distrair do barulho dos infernos. Por que você foi fazer isso, Maíra? Agora nem dormir você vai conseguir e antes, com o chato do pi…pi…pi, você – pelo menos – conseguia, né? Ouvi meu vizinho descer escadas, vi a luz acesa e abri minha porta duas vezes na esperança de trocar umas palavrinhas com ele mas não o vi e o barulho era tão alto que não dava para ele me ouvir abrindo a porta (ou precisaria ser atento aos mínimos detalhes, como eu o sou, semiótica por natureza). A porra do alarme soou durante pouco mais de míseras uma hora e quarenta, e eu no computador com os tampões, que pouco adiantavam, além de doerem. Anyway, era melhor com eles do que sem eles.

pi...pi...pi...pi...pi...pi...pi...pi...pi...pi...pi...pi...

Será que nenhum bombeiro forte e bonitão vai aparecer, caramba? Nem aquele carro vermelho, igual ao do Lego e da Praça dos Bombeiros, lá em Floripa?

De vez em quando eu ia na janela olhar e nada. Nada de bombeiro, nada de bonitão e nada do alarme se acalmar. Para falar a verdade, eu já tinha me imaginado várias vezes segurando um martelo e quebrando aquela maldita caixa de incêndio, que nem quando faltou eletricidade e eu quase congelei em pleno inverno londrino, o barulho parou. Realmente, dá mesmo para confiar nas caixas de incêndio produzidas nos países altos, viu, gente? Se você estiver sem luz, sem água quente, sem aquecimento, sem internet, sem aparelho de som, sem TV, sem namorado e seu flat pegar fogo, alguém vai te salvar (talvez não um bombeiro bonitão) porque o alarme vai funcionar!

Cabe registrar que a moçoila aqui já tinha tentado inúmeras formas de resolver o problema. Já tinha ligado para o service number vááárias vezes e nunca ninguém atendeu. Já tinha falado com a vizinha e, na opinião dela, tínhamos que esperar – e olha que o flat dela é mais perto do pipipi. Já tinha falado com a vovozinha querida do flat A, ela recomendou ligar. Estava eu tentando divagar sobre essas coisas quando…

De repente o alarme parou, eu respirei uma vez aliviada e ele voltou. A respiração travou. Depois o alarme parou. Segunda respiração aliviada. Isso aconteceu umas quatro vezes até o ditocujo parar de vez. Ufa! O barulho ensurdecedor, que nem John Cage e Hermeto Pascoal iam gostar, parou. Mas, comecei a ouvir alguma coisa…pi…pi…pi…pi. Não! O pi…pi…pi permaneceu e achei que era um pi…pi…pi diferente – afinal meus sentidos estavam alterados. Não é possível, ninguém merece. Só que, poucos minutos depois, até o pi…pi…pi parou de tocar. Tudo na maior elegância. Nada de gente gritando, nada de fofoqueiros fazendo muvuca na frente da minha moradia, nada de jornalista meia-boca, nada de palavrão e…sem bombeiro bonitão!

Moral da história: por que eu não apertei essa coisa antes?!?

(E agora escrevo com aquele velho e delicioso silêncio de sempre. O silêncio que vou sentir falta, quando estiver em São Paulo. Ô maravilha!)

Do diário “As Aventuras de MSF nos países altos e baixos”.


13 Comentários so far
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Sua crônica me divertiu bastte,além de que escreve mutio bem…Deixa o leitor entrar em seu texto. Só gostaria de saber sobre os comentários espirituosos do Charles…

Comentário por Ely Tannuri

muito obrigada, querida ely….já vi que ganhei uma leitora fiel!!! beijos

Comentário por ijserpentine

Tá mais para os altos e baixos de MSF nos países.

bjs.

(aqui em sp chove torrencialmente)

Comentário por tomas

risos…

Comentário por ijserpentine

achei tudo legal!
parece um dos dias da minha vida, antes de eu morrer como um belga na bélgica de tanto que eu vivi essa vida internacionada de coisa, para vocês brasileiros e para mim, agora só uma vida de pessoa estrangeira. mas como estou ridículo e jeca! mas…aproveite!

ps: porque tenho um vídeo com essa pureza de formas, e luz, etc, de ann, e é só um take da lua cheia, de uma câmera jvc, do início dos anos 90.
somos sempre pais e filhos

Comentário por Ruchelle Zandavalle

acho que somos todos primos-irmãos, não?

Comentário por ijserpentine

Muito divertido!Histórias reais de nossas vidas tragicômicas! Parabéns pelo blog!

Comentário por Gabriela Lombardi

que bom que você apareceu para me visitar!!! beijos para você e meu primo querido! Maíra

Comentário por ijserpentine

só não gostei da parte que vc apertou o botão “meio sem querer”. da próxima vez aperta com vontade pow!

Comentário por roger

Foi sem querer-querendo, Roger!!!

Comentário por ijserpentine

geeeeeeeeeeeeeente, que aventura louca e maravilhosa!

Comentário por aspásia mariana

Acho que este alarme em alto e bom som veio dizer da disparada felicidade e vontade de vc estar aí. Apesar da saudade, me alegra.
Bjos da mama.

Comentário por Mariza

“O barulho ensurdecedor, que nem John Cage e Hermeto Pascoal iam gostar”, ri demais Maíra!

Comentário por Vanessa Schultz




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