maíra spanghero


O SILÊNCIO DAS FORMAS
09/01/2010, 12:06 AM
Filed under: reportagem afetiva | Tags: , , , ,

Untitled (2009), obra de Ann Veronica Janssens dentro da exposição  Serendipity no Wiels, em Bruxelas. Foto: Philippe de Gobert.

Encontrar a obra da artista inglesa radicada na Bélgica Ann Veronica Janssens foi um ato do serendipismo: uma descoberta feliz e inesperada! Aconteceu na Antuérpia, no teatro De Siegel, quando lá estava para assistir o espetáculo The Song (2009), uma colaboração bem-sucedida entre ela, a coreógrafa Anne Teresa de Keersmaeker e o artista belga Michel François. A sintonia é clara e fina: o interesse nas formas geométricas (especialmente o quadrado), na matéria que cria som e no movimento-espaço-tempo.

Fragmento de Untitled (Golden section), 2009. Foto: Maíra Spanghero.

Desenvolvido em parceria com Michel François durante a criação do espetáculo, Untitled (Golden section) não é realmente um trabalho para ser exposto numa galeria, dadas as circunstâncias de sua invenção. Quando a luz atinge essa espécie de cortina cintilante, produz reflexões difusas, irregulares e fascinantes que só podem ser vistas durante a apresentação da dança. Além disso, a cenografia também é usada para produzir sonoridade, transcendendo sua materialidade e dialogando com os corpos dos bailarinos.

Dá-se o nome de serendipity (serendipismo ou serendipidade, em português) à aptidão ou dom de atrair acontecimentos felizes ou úteis (ou de descobri-los por acaso). Muitos achados na ciência e na arte dependem dessa ocorrência. Serendipity é, também, o nome da exposição que Ann Veronica Janssens apresentou ao público no interessantíssimo Wiels, em Bruxelas, com curadoria de Charles Gohy, em 2009. A palavra que deu título à exibição foi cunhada em 1754, pelo escritor inglês Horace Walpole “a partir do conto de fadas Os três príncipes de Serendip, cujos heróis sempre faziam descobertas, acidentalmente ou por sagacidade, de coisas que não procuravam” (Houaiss). A palavra, tal como conhecemos hoje, deriva do antigo nome do Sri Lanka, Serendip ou Serendib (do árabe Sarandíb).

Liquid Bar, 2009. Foto: Maíra Spanghero.

Interessada no encontro do corpo com o espaço, a artista utiliza luz, sombra, som e cor para criar formas (ou será o contrário? ou será junto?) em esculturas, vídeos, instalações que só fazem sentido na medida em que afetam o corpo daquele que com esses objetos se relaciona. É nessa experiência sensorial, nessa desorientação e instabilidade promovidas na percepção do visitante, que suas obras se revelam e ganham sentido. Ao ser afetado, o corpo percebe/cria um outro espaço-tempo que se constrói dentro do ambiente onde as peças se encontram. Por isso, renda-se e permita-se para poder usufruir!

Chambre Anéchoïque, 2009. Foto: Maíra Spanghero.

Na instalação Chambre Anéchoïque, o visitante é convidado a entrar numa sala recoberta por uma superfície feita de material acústico absorvente, como se vê na imagem acima. Ou seja, quando você entra dentro dessa sala e lá é fechado, não escuta mais nenhum ruído. É uma experiência intensa e perturbadora, essa de ouvir o silêncio. Talvez, por isso, a duração desse conhecimento (o de ouvir o silêncio) obtido pelos sentidos seja de apenas um minuto. Lá dentro, sozinho, você é capaz de ouvir seus batimentos cardíacos ou seus pensamentos, o que pode ser insuportável para alguns e encantador para outros.

Sans titre, 1993. Foto: Maíra Spanghero.

BRANCO NO PRETO NO BRANCO. Luzes (e formas) piscam-crescem-desaparecem-diluem-somem-cegam-turvam. Entram para dentro de si e de mim. Vertigem, saturação, persistência da visão, velocidade, som. Alteram o espaço, criam espaço. Transformam minha percepção do tempo, de onde estou, do claro, do escuro. Pequenas imersões que fazem meus olhos enxergarem coisas que parecem não existir. Tonteiam-me. Acordam os sentidos e terminam por promover impresssões únicas e individualizadas. Por isso, esses trabalhos expostos provocam uma espécie de intimidade que se descortina, além de margear uma instabilidade entre o visual e o auditivo. Curiosamente, essas esculturas de luz e som (ou vídeos, se você preferir), na maioria das vezes, não podem ser fotograficamente capturadas, mas sim experimentadas. É o valor do encontro que conta e da memória que deixa.

NUM PISCAR

a luz pulsa minha pele

o preto me acolhe

Mais informações e imagens podem ser vistas clicando aqui.


4 Comentários so far
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maira, que coisa mais bonita e eloquente esse compartilhar desses quadros incríveis!
fiquei super a fim de ouvir o silêncio das formas, da vida e quero te parabenizar pelo seu dom, o serendipismo em sua vida!
um gde abraço e muchas gracias!

Comentário por maria

obrigada, querida socorrinha. apareça sempre, pois, seu olhar é muitíssimo bem-vindo!
abração,
maíra

Comentário por ijserpentine

ei, psita!!!
como é o som do silêncio
respirando pura arte?
amei!
Bjix

Comentário por Dadix

experimenta ouvir!
saudades suas, beijinhos,
maíra

Comentário por ijserpentine




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