maíra spanghero


verborragia de uma fala muda

Bélgica, 19 de novembro de 2009.

Fui até o balcão e fiz a pergunta básica, “parlez vous anglais?” Diante da resposta positiva, fiz a segunda pergunta, desta vez em inglês, “qual a melhor cerveja que você tem?”, “regular or strong?”, “strong”. Ele me mostrou/ofereceu a Duvel, explicando/avisando que era 8,5% alcoólica. Eu assenti sem pestanejar e o homem que estava ao lado arregalou as sobrancelhas. O barman serviu o líquido num copo bonito, de boca larga, bem como eu gosto e falou, também sem pestanejar, “são 3 euros”. Cá estou eu bebendo minha primeira cerveja belga, na Antuérpia.

Ufa!

Foi um dia…emocionante, difícil. Cheguei na Gare du Midi com os ponteiros colando nas 9 horas. Eu não sabia mas Bruxelas me esperava com um lindo dia de sol. Minha mala, embora pequena e com rodinhas, não me permitia longas caminhadas. Eu tinha instruções de como chegar no meu bed & breakfast mas o dono da casa só estaria lá para me receber uma e meia da tarde. Resolvi observar o ambiente, ir ao banheiro, tomar um chá com croissant, encontrar um mapa e entender como sair dali. A “central de informações para turistas” (o que não era bem o meu caso, voilá) se resumia a um posto redondo com dois guichês, cada um com informações diferentes. Peguei o mapa, depois de ter pedido no balcão errado: “você tem que falar com o jovem ali (apontando para suas costas), eu sou o homem velho”. Eu diria “o homem careca”, para resumir a história, eu voltei lá três vezes até conseguir me achar. Embora falássemos inglês, a comunicação era “improvável”, como diz certo teórico da área. Na segunda vez, cheguei dizendo “oi, old man”, ele riu e me reconheceu. Na terceira vez, ele saiu do guichê e foi andando comigo até a escada rolante. Como pode uma estação internacional ter apenas um ponto de informação e, como pode um dos dois funcionários disponíveis abandonar o posto para me ajudar? (Isso não tem preço) Demorei mas entendi a lógica do metrô. Ou melhor, cruzei as informações que tinha: o “como chegar” do bed&breakfast com as sinalizações da estação. Consegui até comprar sozinha o bilhete do transporte. Yes, nós temos bananas!

Peguei o metrô, que anda mais a céu aberto, que dentro da terra. Claro que desci no ponto errado, como toda boa DDA distraída. Quer dizer, verdade seja dita: as dicas do B&B estava erradas/insuficientes. Eu tentei perguntar para um senhor, ele não entendeu meu inglês, ou inglês. Esperei o ‘tram’ parar para falar com o motorista, ele custou a entender, todo mundo dentro esperando, até que ele disse que era preu descer. Obedeci, sem pestanejar.

Depois fiquei feito barata tonta tentando encontrar vivas e acordadas almas que falassem uma pitadinha de inglês. Detalhe: a mala ter rodinhas não foi de grande ajuda. O chão é todo irregular, com paralelepípedos grandes, coisa antiga. A cidade é tão tranquila (ao menos nessa região) que, carro, ônibus, tram e bicicleta dividem/ocupam o mesmo espaço mas nunca ao mesmo tempo. No máximo, o carro anda com o trem no trilho do lado. E eu puxando, puxando, puxando minha mala com alça e com rodinhas…

O primeiro homem que me informou uma rua perto da Rue Verhas parecia estar correto mas quando eu parei na farmácia a mulher grávida (e que só falava francês) me fez voltar e, no ponto de tram/bus, uma muçulmana simpaticíssima (que falava inglês e achou que eu era árabe) me mostrou a rua que eu deveria pegar, a mesma que a mulher da farmácia me fez voltar. Quando atravessei a rua e os trilhos, uma mulher me interpelou falando francês. Queria saber se eu estava bem, se eu tinha achado meu rumo porque tinha me visto para lá e para cá. Não me pergunte como entendi o que ela falou. A comunicação é inexplicável, eu diria.

Lá fui eu. Na esquina seguinte, três homens jogavam conversa fora. O mais assanhado deles me olhou como um brasileiro sem-vergonha me olharia. Eu ataquei: parlez vous anglais? Mais ou menos. Mas o suficiente para não conhecer a rua que eu ia mas para carregar minha mala até um cyber café um tanto chechelento. Ôba! Internet, alguma coisa familiar para acalmar meus sentidos exaustos de tantos estímulos novos + uma noite pouco dormida.

Ledo engano. O teclado francês é coisa do outro mundo e meu curso de datilografia feito no tempo que o computador ainda não era tão popular assim, de repente…caducou. Lá estava eu catando feijão, milho…

Numa hora dessas, o melhor a fazer é dar um alozinho para sua mãe, se você ainda tem uma. Entrei em uma das cabines logo atrás da fila de computadores depois de trocar a mais maluca das comunicações com o turco (ou marroquino?) responsável pelo lugar. Minha mãe não estava. que legal. Apelei para minhas frases tipo “não falo francês mas sou esforçada/educada”: “indiquez pour moi a restaurant, svp”. O cara foi até a porta e apontou para um “asian fast food” do outro lado da rua. Acho que quando você não sabe para onde ir, não conhece ninguém, não tem dinheiro para gastar com taxis caríssimos (ou prefere guardá-lo para livros, cervejas e chocolates), não tem namorado para carregar sua mala, sua mãe não está e você não entende lhufas de nada…o melhor é…comer alguma coisa. Pelo menos você terá uma sensação de “preenchimento” indescritível”. (Agora estou bebendo uma “Vedett” extra blond e o copo é diferente. Cada macaco no seu galho e cada cerveja no seu copo!)

Bom, o atendente falava um inglesinho razoável e eu avisei que era vegetarian e ele perguntou o tamanho da minha fome. De regular para large. Ele sugeriu noodles, o que significa um macarrão menos enroladinho que o miojo misturado com meio ovo mexido, raspas de cenoura, uma dúzia de broto de feijão (literalmente) e umas coisinhas verdinhas que preferi não identificar. Era muito macarrão e um pouco de shoyo, não muito. Convém registrar, o prato era grande e custou 6,50 euros. Não sei bem porque mas, foi dar a primeira garfada e começar a chorar. Aliás, eu sei o porquê: faltava sal na comida. Além do mais, vale muito a pena chorar num restaurante vazio onde ninguém te conhece e você não conhece ninguém. Isso, de algum modo, te universaliza.

Sem lágrimas no reservatório e com o estômago cheio pisei novamente na calçada com minha mala de rodinhas. Eu queria colocar créditos no meu “Vodafone sim card”, já que meu “Orange” não se comunicava com os belgas de jeito nenhum. Já pensou meu desespero se eu só tivesse as (deliciosas) cartas como opção? (ou será que não há nenhum desespero nisso?) Quinze minutos depois, cinco euros jogados fora e mais uma aventura comunicacional com o amável barrigudo do que chamaríamos de “mercadinho da esquina” no Brasil e eu continuava “incomunicável” com o mundo. Que mundo, meu deus do céu?!

arranha-céu

(Liguei para meu coração partido.)

Convém registrar que o rapazinho do inglesinho razoável do asian fast food me ajudou a entender as ruelas “bruxelosas” e eu fui andando com o ploc, ploc das rodinhas no meu ouvido e, cinco minutos antes do combinado, eu cheguei na Rue Verhas 11 junto com meu “hospedador”.

Como será que nos reconhecemos sem nunca termos nos visto? Meio óbvio. Eu parada na frente da sua porta com minhas rodinhas e ele descendo das rodas da sua bicicleta, ambos pontuais.

(os bailarinos do The Song estão jantando na mesa ao lado)

Simpático, baixinho e magricela, Adi é um “quirido”, como diriam os amantes de Nossa Senhora do Desterro. Abre a porta da casa do século XIX (reformada em 1994) e carrega minha mala que parece mais pesada que ele, ainda que a dica de ouro do Dauro tenha sido considerada. A casa tem vários andares e eu esperei no térreo, na grande sala com cozinha e quintal,  enquanto ele limpava meu quarto. Esperei feliz da vida, brincando com seus três adoráveis gatos, todos ronronando e me dando atenção. Como diria Garfield, “é difícil ser gostosa, mas alguém tem que ser”, não é mesmo?

frente da casa

Ginger (ciumenta, precisa de atenção só para ela)

Socks (carinhosa, respeitosa, ronrona, ronrona...)

(Clarence não quis ser fotografada, é tímida, super na dela mas MUITO afetiva se você faz contato)

Adi me avisou que o quarto estava pronto. Subimos quatro lances de escada (ele carregou a mala, lógico) até chegarmos no meu agradabilíssimo quarto, com mezanino e tudo o mais. Nada como ser visitante numa “verdadeira” casa belga. Depois de me passar todas as “instruções” (como abrir e fechar a porta) e me perguntar que horas queria meu café da manhã (café ou chá? chá), ele me deixou a vontade para fazer minha bagunça de praxe.

Escovei os dentes e parti em poucos minutos para pegar o trem das três para Antuérpia. Consegui encontrar o caminho, consegui um falante de língua inglesa no ponto e lá fui encontrar o Carlos Garbin, bailarino brasileiro da companhia Rosas!

vista do trem

da janela do trem

mais arranha-céu

estação na Antuérpia (uau)

na frente do teatro

a imagem não tem edição

teatro

pronta para assistir The Song

entrevista com a anne teresa de keersmaeker

The Song

Muitas aspas, reticências, exclamações, interrogações e sem ponto final


4 Comentários so far
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dear, sua desorientação produziu um relato envolvente. intensa errancia.
e continua a se encontrar com os felinos?! eles sao uma coordenada talvez.
bons trajetos para ti*

Comentário por th. c.

Bela experiencia hein!
E uma Duvel, é tudo de bom.
Nao esqueça, as cervejas belgas, sao as melhores do mundo hehehehe
beijo
nina

Comentário por Nina

Oi prima, nossa, as suas experiências são ao mesmo tempo envolventes e engraçadas e o seu estilo de escrever é tudo de bom,adoro!!!! Quando voltar para o Brasil, se é que vai voltar (se fosse eu não voltaria ‘jamé’), legal você escrever um livro, eu seria a primeira a comprá-lo. Beijos e mande fotos.

Comentário por Simone Ferreira

Maira,
Seu blog esta uma delicia! Nao nos prive das novidades!
beijos
Paula

Comentário por Paula du Gelly




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