maíra spanghero


No escuro

no escuro

Essa, com certeza, será daquelas experiências que ficará para sempre na categoria das “inesquecíveis”. Afinal, não é todo dia que se janta num lugar absolutamente escuro sendo servida por garçons…cegos! Aliás, quem foi que disse que se come com os olhos?

Pois é exatamente esse o diferencial do restaurante Dans Le Noir? que tem endereço certo em Paris e Londres (em breve, filiais em Barcelona e Nova Iorque). Se você gostou da ideia, a primeira coisa a fazer é reservar o seu lugar via e-mail ou telefone com antecedência e aguardar pela confirmação. Foi o que fiz. Esperei, curiosa, pelo compromisso mais esperado da semana.

Ao chegar no lugar, fomos, eu e meu amigo, recepcionados por uma moça que falava inglês com forte sotaque francês. Ela nos orientou a deixar nossas bolsas, casacos e celulares num armário com chave logo do nosso lado. Entregamos nossos cartões de crédito e, enquanto nossa mesa era preparada, fomos levados para um bar lounge, onde bebericamos e escolhemos o menu entre carne, peixe, vegetariano ou surpresa. Os cardápios têm preço fixo e é possível combinar e selecionar as seguintes opções: entrada, bebida, prato principal e/ou sobremesa. O detalhe é que você não sabe mais nada a não ser qual menu escolheu, ou seja, não sabe que tipo de carne, com que acompanhamento ou  molho.

Eu estava ansiosa, meu amigo também. Após uma meia-hora, resolvemos perguntar quanto tempo ainda ficaríamos no lounge e a moça foi checar se nossa mesa estava pronta. Estava. Voltamos para o hall de entrada do restaurante, onde nos juntamos a uma outra dupla. Fomos orientados a formar uma fila, braço direito no ombro direito da pessoa a nossa frente. Fomos, também, apresentados ao Takashi, o nosso garçom, que nos deu as boas vindas e algumas instruções do tipo: caso quiséssemos fazer algum pedido extra ou perguntar algo, deveríamos chamá-lo pelo seu nome. Nos apresentamos e ele abriu uma cortina por onde passamos e entramos, um atrás do outro, num corredor escuro.

A sensação é indescritível. Ser guiado por um cego tem um impacto enorme no sistema sensório-motor de seres que se orientam, sobremaneira, pelo visual. Essa inversão de condição tem conseqüências radicais para os que enxergam e para os que não enxergam. Esse corredor não era totalmente escuro, mas quando entramos no ambiente do restaurante, passando por uma porta, não dava para enxergar absolutamente nada. Nem o seu nariz. A escuridão era total e irrestrita. Nem se ficássemos ali 3 horas, não daria para enxergar nadica de nada, nem um vulto, num uma sombra, como quando acontece no escuro do quarto de dormir. A ausência de luz era completa e eu estava….cega.

Takashi nos colocou, um a um, em nossos lugares. Ele sabia como direcionar sua voz e eu sabia quando ele falava comigo. Pegando no meu braço, ele indicou onde havia uma cadeira para eu me sentar. Lá fui eu. Tateei, puxei e me acomodei. Agradeci o fato de não ter nenhuma bolsa, casaco ou celular comigo. Sentei e passei a mão ao redor. Percebi que havia uma mesa na minha frente. Chamei pelo meu amigo, estava com medo de ficar sozinha no escuro e sem ninguém conhecido por perto. Ele estendeu a mão pela borda da mesa e minha mão encontrou a dele. Ufa, ele estava na minha frente.

Notamos a existência de dois copos, grandes e pesados. Takashi trouxe o vinho e disse ao meu amigo que tomasse conta dele. Para facilitar, e compreendemos o porquê disso imediatamente, a taça era, na verdade, um copo redondo e largo. Meu amigo disse que iria me servir e eu estendi o copo na minha frente. Mas, como ele iria saber aonde estava o copo? Com a outra mão, eu tentei encontrar a garrafa e ele fez o mesmo, tentando encontrar meu copo. Notei que ele enfiou o gargalo da garrafa dentro do corpo e virou um pouco. Disse que já tinha me servido e eu coloquei o copo na boca mas a bebida não veio. Coloquei um dedo dentro e tinha apenas um tiquinho mas a sensação que ele tinha era de ter enchido. Tentamos mais uma vez e ele derramou tanto que quase caiu para fora. Rimos. O vinho era delicioso. Preferimos deixar a escolha para o chef (que por sinal não era cego), de acordo com o cardápio de peixe que solicitamos (avisei antes que não comia pimentão). Percebemos que o ambiente estava extremamente barulhento e que as pessoas falavam alto demais para uma experiência tão intimista quanto esta. Mais tarde, soubemos que as pessoas, para compensar a ausência da visão, acabam falando mais alto que o normal, além, suponho eu, dos efeitos que as bebidas geram.

Logo depois, Takashi voltou e avisou que serviria nossas entradas. Colocou meu prato na mesa, sempre falando comigo e dizendo o que faria e depois o do meu amigo, nos desejando “bom apetite”. O cheiro era delicioso. A primeira iniciativa que eu tive foi a de tatear o prato com a mão para saber onde ele havia sido colocado exatamente. Ok, bem na minha frente. Percebi que o prato era grande e quadrado, talvez para facilitar a identificação de sua posição porque, caso fosse redondo, ficaria mais difícil de localizar sua relação com o espaço. Encontrei o garfo e “às cegas” tentei garfar alguma coisa. Coloquei o ditocujo na boca – nessa hora meu amigo brincou “será que vou encontrar minha boca?” – e…vazio. Repeti o procedimento umas cinco vezes e o garfo vinha sempre vazio. Ao menos, eu tinha conseguido acertar a boca. Saquei que minha estratégia não estava funcionando. Assim sendo, coloquei os dedos no prato até que eles encostassem em alguma coisa. Identifiquei algo cremoso como um molho e uns pedaços de alguma comida. Empurrei para o garfo e, finalmente, experimentei a primeira bocada, lambendo depois os dedos. Uma delícia! Descobri uns camarões empanados, também muito saborosos, e fiquei imaginando qual seria a disposição das coisas. Como o procedimento de colocar a mão e os dedos no prato funcionou – ainda que qualquer mãe torcesse o nariz (no escuro não ia mesmo dar para ver o seu nariz torcido) – eu continuei mais um pouco assim até que…abandonei de vez o garfo. Estava comendo com as mãos! Era mais eficiente e eu podia sentir texturas e temperaturas, antes de colocar na boca. O guardanapo de pano, imprescindível, é grande e aderente, o que deve ser proposital.

Perguntei ao meu amigo, que é uma pessoa educada e muito contida publicamente, como ele estava se virando. Ele riu, disse que estava, como eu, comendo com as mãos e bebendo o vinho no gargalo. Eu gargalhei. A experiência de comer no escuro parecia ser psicologicamente libertadora também! Apenas lamentei quando percebi que tinha comido toda a entrada. De tão gostosa, eu queria aproveitar tudo até o fim e anunciei em bom tom: vou lamber o prato! Eu não vi mas acredito que meu amigo tenha feito o mesmo.

Dali a pouco, Takashi voltou perguntando se poderia retirar os pratos para servir o principal. Prontamente concordamos e eu, ainda reforcei, fazendo “sim” com a cabeça (risos). Muito melhor do que a gente, Takashi foi direto, preciso e pegou os pratos, um de cada vez. Sempre se dirigindo atenciosamente a um e ao outro, ele nos serviu o principal. Como cheirava bem e eu era capaz de sentir o calor da fumacinha! Descobri que meu corpo estava melhor adaptado à situação e já reconhecia melhor as distâncias entre mim e o prato, o copo e a garrafa. Tentávamos adivinhar o que comíamos e, pelo menos eu, tinha esquecido completamente da existência do garfo. Lamber os beiços e os dedos nunca foi tão bom. Reconheci um pedaço de beringela e fiquei felicíssima. Os pedaços de peixe estavam suculentos e cabiam inteiros na boca. Com certeza, devia ser premeditado, já que usar a faca não seria muito recomendável para seres sub-desenvolvidos-predominantemente-visuais. Fiquei curiosa para saber a cor das comidas que ali estavam dispostas e aposto que estavam visualmente bonitas (ao fim da experiência, é possível ver fotos do que foi comido).

Melhor que isso eram os cheiros, as texturas e os sabores. Só provando para saber. Lambi o prato de novo, lamentando terrivelmente que estivesse terminado. O gole de vinho cresceu na minha boca. Entre uma garfada, digo “dedada” e outra, comentávamos sem parar o que sentíamos. Cada conquista motora do nosso corpo era apreciada em detalhes. Peguei a garrafa de vinho e notei que tinha acabado.

Takashi perguntou se queríamos mais alguma coisa. Arrependi-me amargamente de não ter o costume de comer sobremesa e prometi que voltaria outra vez só por conta disso. Não me dei conta de quanto tempo ficamos ali mas me sentia expandida, como se houvessem orelhas por todo o meu corpo e como se dedos saíssem dos meus olhos. A negritude era agora leve e eu estava segura e confortável sendo guiada pelo meu querido garçom cego, um imigrante do Japão. Ele nos ajudou a levantar, nos orientou em que direção girar o corpo e quando deveríamos andar. Enquanto caminhava, podia ouvir as pessoas ao redor mas não esbarrei em nenhuma delas, nem em nada. Meus passos estavam diferentes. Eu tinha outra confiança no mundo.

Cruzamos a porta, onde pude ver que estava escrito algo como “absolutamente proibido ultrapassar essa porta sozinho”. Estávamos de volta à penumbra do corredor e, a seguir, diante da cortina que nos devolveria ao mundo dos que precisam de olhos. Agradeci com devoção à experiência ao Takashi e cruzei a cortina.

Nunca mais fui a mesma.


24 Comentários so far
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Adorei seu relato e amei seu blog!

Comentário por Dauro Veras

Amei seu blog.
Seu relato foi um show, estive ao seu lado, ceguinha, ceguinha…
Bjs com saudades.

Comentário por Adriane

Parabéns pelo blog…e que situação incrivel essa vivida por voces, enquanto eu lia imaginava as cenas todas aqui na minha frente, e quanto essa relação deve acrescentar valor aos outros sentidos…muito, muito bom o seu relato, obrigada por dividir. beijos querida

Comentário por preta

ola maira!
tudo lindo. texto e historia.
besos. marli (de floripa)

Comentário por marli

Adorei a narrativa. Quando descobri que você dança, mais ainda: a descoberta das novas possibilidades e “antenas” do corpo, pra quem dança, deve ser fantástico. Parabéns!

Comentário por Raul

tbém quero!

Comentário por Vanessa Schultz

Descobri que escrever é uma forma mágica de se expor…toda forma de exposição precisa ter segurança…com isso descubro o quanto es segura….parabéns pela inteligência e leveza com que escreve…dani

Comentário por Daniela

Maíra, pa-ra-béns!!!Não só pela experiência em Paris, mas porque você escreve extremamente bem!
com leveza, humor, sensibilidade…
Adorei, mesmo, vou mandar para a Maíra, Glauco e João Guilherme e Alexandre.
beijos
Rona

Comentário por Rona

Filha querida,
Foi muito linda a experiência de ver com teus olhos, enxergar com teus dedos, descobrir que o escuro pode ser claramente cheiroso.Fiquei ansiosa,lambi os dedos, ri muito e relaxei também.
Uma pessoa tão linda e inteligente como vc, tem mesmo que distribuir tamanha sensibildade e ousadia.
Carinhos quentes e muito ORGULHO DA MINHA FILHA.
Sua mãe.
Mariza

Comentário por Mariza

Oi Maíra!
vim fuçar, adorei o relato da cegueira e, enfim… fiquei emocionada! Orelhas pelo corpo todo… rs! Fiquei lambendo os beiços junto, e morrendo de vontade de viver esta experiência!
Vou fuçar mais no blog, vi que tem umas discussões interessantes (ignorância pura minha não saber que o forshyte se aventurava nas artes visuais..?!)
Aproveito pra divulgar um blog que venho alimentando de vento em popa, com a idéia de manter um espaço para discussão e crítica de arte de forma democrática e despretenciosa…
dá uma olhada lá: http://sejacricri.wordpress.com
beijos!
ana

Comentário por Ana Dupas

Maíra, minha queridíssima q eu amo!
Li e ri muito de vc lambendo o prato, literalmente. Mas eu adoro comer com os olhos (metaforicamente, hã?) Sua experiência me fez imaginar sabores, texturas q sinto qdo gosto e como de olhos fechados. Me deu inveja de não estar com vc aí, heheheheee…pq eu fiquei com mta saudade de vc. Um beijo beem grande
do Frank

Comentário por Frank Maia

uau, forte essa experiência, hein?!
maira, imagino que vc já tenha lido o ensaio sobre a cegueira do saramago. alguma relação com a comida no escuro?
vc me deixou bastante curioso, principalmente a respeito de seu estado confiante no final. agora tô com vontade de passar por uma experiência assim.
fiquei pensando também se o restaurante tem um bom e fiscalizado cuidado com insetos indesejados… sabe algo?

um abraço,
alexandre(de alencar)

p.s: gostei como traduziu, digo, como (des)escreveu suas sensações.

Comentário por alexandre

a experiencia de comer com as mãos me retornou uma sensação geológica, primitiva e insistente, no entanto, o mais contemporaneo que consigo perceber ainda é isso. seu relato se associa a um mapa de um lugar, quase criei uma planta baixa desse restaurante.
grato pelo estimulo sensoriogeografico maíra.

gostaria de enviar-te da bahia uma cuia para vc beber agua.

Comentário por th. c.

Oi prima, que experiência fascinante. Realmente, se eu tivesse passado por isso também seria outra pessoa, imagine privação total do sentido da visão, em compensação os outros sentidos aguçados. Com certeza o vinho que vcs tomaram, bem como a comida tiveram um gosto mais do que especial, pois com o paladar aguçado deve ter sido uma sensação daquelas. Nossa,queria ter tido tal experiência. TOTALMENTE DEMAIS!!! PURA SENSAÇÃO.

Comentário por Simone

Maira : interessante, gostosa , assustadora,sensul esta tua vivencia gustativa, sensorial, para mim tb me suscitou muitas sensações na tua narrativa, a foto da idosa está incrível, mas creio que ela ja devera ter mais de 70 aninhos, abs miriam

Comentário por miriam dascal

Prima super querida,
Outro dia vi a matéria sobre este restaurante e fiquei curiosíssima pra saber como rolavam as coisas…Obrigada por me colocar a bordo de sua aventura me fazendo enxergar com os olhos do coração…
Beijos 1000
PS:Mande o Takashi aqui pro meu bar, pois dá de dez nos meus garçons que além de cegos são surdos!!!

Comentário por miriam dalla déa

Maroca querida…
Pela segunda vez leio a deliciosa experiência e bate uma saudade apertada. Só tu mesmo pra escreveres assim desse jeitinho…estive alí de alguma forma, obrigada! Sou a amiga orgulhosa sempre de ti! tô na tchurma da Marisa..rsrs ..A propósito mande lembraças a ela.. Muitos beijo minha amiga linda! Adorei o “Diga lá!”..digno de uma boa gargalhada ..

Comentário por gabi neves

Esqueci de assinar…sorry! Gabi Neves..Diga lá!

Comentário por gabi neves

adorei!!! quero ir!!!

Comentário por ju

ahhhhhhhhhhhhh!!!! Que tudo Maíra!
Também quero!!!
Adorei o relato.
Beijos

Comentário por Mariana

Maíra, que delícia de texto! Sinestesia pura! Ri junto com vc diante das descobertas. Emocionei-me com a apuração dos outros sentidos, que foram conquistando espaço na cena conforme os olhos ganhavam outro status: o do sentir. Vc trouxe à luz percepções que estão além das palavras… mas conseguiu traduzí-las leve e lindamente. Obrigada!

Comentário por Clarissa

Muito bom Maíra! ao ler a sensação é a mesma de pensar e assistir a uma coreografia. Os músculos respondem e todos os tipos de imagens são acionados. Comer com as mãos… um hábito não tão estranho para muita gente aqui em Salvador…Muito bom! beijos grandes. veronica.

Comentário por veronica

Querida Maíra,
Que blog rico!Que sensibilidade menina!Tenho certeza que tantas vezes eu possa lê-lo, cada vez me trará mais entendimento…
Conheci vc ainda na barriga da Mariza…Sabia que, sendo vc, filha de quem é, seria tão especial assim….
Grande abraço
Ely

Comentário por Ely Tannuri

Só vendo… Pra acreditar… Ou não vendo… Gracias
Rino

Comentário por Rino




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