Arquivado em: mexe que eu gosto, projetos, reportagem afetiva | Tags: cena 11, dança, investigação afetiva, lia rodrigues, propaganda
Transmissão pública ONLINE nos dias 03, 04, 07, 08, 09 e 10/07 às 16h e 18h.
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Entre os dias 1o e 11 de julho, acontece em São Paulo, o PROJETO PROPAGANDA. Fruto de uma parceria da Núcleo Corpo Rastreado (produção) com o SESC/SP (co-patrocínio), as companhias de dança contemporânea Lia Rodrigues (RJ) e Cena 11 (SC) e outros profissionais do vídeo, da internet e da dança, o projeto, em seu início, foi contemplado com o Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna 2009. O principal mérito da empreitada é, justamente, a promoção da convivência entre as duas companhias e o investimento na investigação, algo raro no atual sistema de produção cultural que vivemos no Brasil. Esse espaço dedicado ao “estar junto”, ao “prestar atenção no como fazer” e à “criação de estratégias de ação coletiva”, entre outras características, se apresenta como um campo fértil de experiências (e não de comprovações). A propaganda, nesse projeto, acontece quando se afeta o corpo do outro.
Um dos desafios envolvidos no “estar junto” é a criação do “comum”. Embora as duas companhias tenham modos de trabalhar que diferem substancialmente, é possível observar ideias artísticas, preocupações e dificuldades similares entre elas. Essas descobertas estão se dando nesse convívio que envolve o exercício da fala e da escuta, das tomadas de decisão, das práticas corporais, das relações do corpo e dança com o vídeo e a internet, entre outras. Nesse sentido, cabe perguntar: quais são os pontos de conexão? Como é tomar decisões onde as escolhas implicam/reverberam em todos? Como criar ética/estéticas artísticas com as duas companhias? Como gerar estratégias coletivas de sobrevivência para a dança contemporânea? Como afetar o público? Como criar diálogos entre os participantes?
PROPAGANDA possui algumas palavras-chave, digo, tags que funcionam como pistas: extinção – dança – residência – manifesto – vídeo – acessibilidade – internet – público.
Arquivado em: reportagem afetiva | Tags: ann veronica janssens, bruxelas, serendipity, the song, wiels
Encontrar a obra da artista inglesa radicada na Bélgica Ann Veronica Janssens foi um ato do serendipismo: uma descoberta feliz e inesperada! Aconteceu na Antuérpia, no teatro De Siegel, quando lá estava para assistir o espetáculo The Song (2009), uma colaboração bem-sucedida entre ela, a coreógrafa Anne Teresa de Keersmaeker e o artista belga Michel François. A sintonia é clara e fina: o interesse nas formas geométricas (especialmente o quadrado), na matéria que cria som e no movimento-espaço-tempo.
Desenvolvido em parceria com Michel François durante a criação do espetáculo, Untitled (Golden section) não é realmente um trabalho para ser exposto numa galeria, dadas as circunstâncias de sua invenção. Quando a luz atinge essa espécie de cortina cintilante, produz reflexões difusas, irregulares e fascinantes que só podem ser vistas durante a apresentação da dança. Além disso, a cenografia também é usada para produzir sonoridade, transcendendo sua materialidade e dialogando com os corpos dos bailarinos.
Dá-se o nome de serendipity (serendipismo ou serendipidade, em português) à aptidão ou dom de atrair acontecimentos felizes ou úteis (ou de descobri-los por acaso). Muitos achados na ciência e na arte dependem dessa ocorrência. Serendipity é, também, o nome da exposição que Ann Veronica Janssens apresentou ao público no interessantíssimo Wiels, em Bruxelas, com curadoria de Charles Gohy, em 2009. A palavra que deu título à exibição foi cunhada em 1754, pelo escritor inglês Horace Walpole “a partir do conto de fadas Os três príncipes de Serendip, cujos heróis sempre faziam descobertas, acidentalmente ou por sagacidade, de coisas que não procuravam” (Houaiss). A palavra, tal como conhecemos hoje, deriva do antigo nome do Sri Lanka, Serendip ou Serendib (do árabe Sarandíb).
Interessada no encontro do corpo com o espaço, a artista utiliza luz, sombra, som e cor para criar formas (ou será o contrário? ou será junto?) em esculturas, vídeos, instalações que só fazem sentido na medida em que afetam o corpo daquele que com esses objetos se relaciona. É nessa experiência sensorial, nessa desorientação e instabilidade promovidas na percepção do visitante, que suas obras se revelam e ganham sentido. Ao ser afetado, o corpo percebe/cria um outro espaço-tempo que se constrói dentro do ambiente onde as peças se encontram. Por isso, renda-se e permita-se para poder usufruir!
Na instalação Chambre Anéchoïque, o visitante é convidado a entrar numa sala recoberta por uma superfície feita de material acústico absorvente, como se vê na imagem acima. Ou seja, quando você entra dentro dessa sala e lá é fechado, não escuta mais nenhum ruído. É uma experiência intensa e perturbadora, essa de ouvir o silêncio. Talvez, por isso, a duração desse conhecimento (o de ouvir o silêncio) obtido pelos sentidos seja de apenas um minuto. Lá dentro, sozinho, você é capaz de ouvir seus batimentos cardíacos ou seus pensamentos, o que pode ser insuportável para alguns e encantador para outros.
BRANCO NO PRETO NO BRANCO. Luzes (e formas) piscam-crescem-desaparecem-diluem-somem-cegam-turvam. Entram para dentro de si e de mim. Vertigem, saturação, persistência da visão, velocidade, som. Alteram o espaço, criam espaço. Transformam minha percepção do tempo, de onde estou, do claro, do escuro. Pequenas imersões que fazem meus olhos enxergarem coisas que parecem não existir. Tonteiam-me. Acordam os sentidos e terminam por promover impresssões únicas e individualizadas. Por isso, esses trabalhos expostos provocam uma espécie de intimidade que se descortina, além de margear uma instabilidade entre o visual e o auditivo. Curiosamente, essas esculturas de luz e som (ou vídeos, se você preferir), na maioria das vezes, não podem ser fotograficamente capturadas, mas sim experimentadas. É o valor do encontro que conta e da memória que deixa.
NUM PISCAR
a luz pulsa minha pele
o preto me acolhe
Mais informações e imagens podem ser vistas clicando aqui.
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(Este texto é proibido para menores de 18 anos. Leitores podem considerar incômodas descrições e imagens aqui contidas)

Vênus de Cera - figura anatômica feita em Florence, 1771-1800, Cortesia do Science Museum, Londres
Um livro grande e corpulento está aberto e mostra uma ilustração com sobreposições. Uma imagem sobre a outra. Você pode abrir o tórax para ver o que tem dentro. “Uma Pesquisa sobre o Microcosmo; ou, A Anatomia de Corpos de Homem e Mulher”, de 1702, é um dos intrigantes materiais disponíveis na exposição Exquisite Bodies or the Curious and Grotesque Story of the Anatomical Model.

Vênus de Cera - figura anatômica feita em Florence, 1771-1800, Cortesia do Science Museum, Londres
O nome é muito adequado ao que exibe: exquisite vem do latin exquisitus e sua origem está no século XV. Ex + quaerere = procurar. Também pode ser traduzido como “cuidadosamente selecionado”, “marcado por impecável maestria ou por execução elaborada, ingênua e bela”, “extremo”. Realizada pela excelente Wellcome Collection, uma instituição interessada em debater assuntos ligados a arte-ciência, medicina e saúde, a exposição reuniu inúmeros objetos (pinturas, desenhos, fotografias, livros entre outras peças) e muitas informações para mostrar um pouco da história dos modelos anatômicos e a relação humana com a cura, a morte, a doença, a saúde e a vida. Os objetos são preciosas peças ‘arqueológicas’ e nos contam histórias que vão além delas próprias. Falam de seu contexto, dos entendimentos culturais e científicos em voga, das crenças, dos preconceitos. São objetos curiosíssimos ou apenas para os indubitavelmente curiosos.

imagem da exposição
A exposição traçou um apanhado dessa história desde do início com as estranhas obras de arte patrocinados pelo Duque de Tuscany e considerados na sociedade vitoriana como trabalhos imorais e pornográficos. Segundo informações divulgadas pelo evento, no século XIX, a despeito dos melhores esforços dos body snatchers (aqueles que roubavam corpos das covas), a demanda vinda das escolas de medicina por cadáveres frescos estava longe de ser rapidamente atendida. Uma solução para esse repulsivo problema surgiu na forma de modelos de cera que imitavam e representavam os corpos. A mistura, portanto, entre “ciência séria” e “circo dos horrores” revela crenças sobre fragilidade, sexualidade e sobre a “divina arquitetura” existentes nesse mesmo século XIX.

Extração da placenta: ilustrando os estágios do nascimento de um bebê (c.1900) Coleção Família Coolen, Antuérpia/Museum Dr Guislain, Ghent, Bélgica
Museus de modelos anatômicos ficaram populares entre os europeus que procuravam um entretenimento diferente para ocupar as tardes. Em Londres, Paris, Bruxelas e Barcelona, o público poderia aprender sobre as estruturas internas do corpo, seu sistema reprodutivo e sua vulnerabilidade para doenças através de peças dispostas que combinavam ciência com horror. Pagando uma pequena taxa, até pessoas com ganhos escassos poderiam ter acesso a conhecimentos até então restritos aos nobres e aos estudantes da área. Porém, na metade final do século XIX, os museus de anatomia foram acusados de obscenidade e campanhas moralistas provocaram mudanças e as coleções de modelos de cera foram, então, absorvidas em novas esferas do entretenimento: feiras ao ar livre e circos.
Não sei bem o porquê, mas a grandissíssima maioria dos modelos ali expostos (e os que eram produzidos) eram de figuras femininas que podiam ser fragmentadas e despedaçadas em diferentes partes. Muitas réplicas revelam os estágios da gestação humana e do nascimento, o que revela interesse e fascinação enormes pelos mistérios da concepção. Outros modelos eram mais “macabros” e mostravam o corpo com doenças que eram consideradas “sociais”, como a sífilis, a tuberculose, o vício de drogas e bebida.

Cabeça mostrando sífilis, c.1900, Coleção Família Coolen
Um dos mais famosos museus de anatomia do século XIX em Londres foi o de Joseph Kahn, que atraiu mais de 200 visitantes por semana no auge de sua popularidade. Kahn, que era médico vindo da Alsace, veio para a cidade em 1851 e estabeleceu seu Museu Anatômico e Patológico no número 315 da Oxford Street. Sua coleção incluía modelos mostrando o desenvolvimento do feto humano, réplicas em tamanho natural do Apollo Belvedere e Vênus de Medici, além de numerosas espécimes ilustrando as “doenças da imprudência” e os “terríveis efeitos do onanismo”. Para complementar os objetos expostos, palestras eram promovidas diariamente sobre assuntos como dieta, embriologia e saúde sexual.
Um poster datado de 1854 anuncia a exibição do novo modelo anatômico “florentine” sob a palavra de ordem “conheça a si mesmo”. Mulheres podiam assistir a demonstração, comandada por Mrs Baker, duas vezes por semana, às terças e sextas, enquanto os homens tinham tinham o direito de escolher entre segunda, quarta e quinta mas com a demonstração do marido da senhora Baker.

modelo do engolidor de espada
Entre desenhos, páginas de livros antigos e modelos do corpo humano feitos de cera, você se depara com um engolidor de espada, engolindo a própria, como o tórax e o abdômen abertos para mostrar o trajeto do objeto. É uma espécie de reprodução explicativa com fios atados nas partes do corpo que conectam-se a plaquinhas com o nome do órgão. Performers que eram capazes de passar uma longa peça de metal para dentro do estômago aprenderam a reprimir o reflexo da garganta e a controlar a ânsia de vômito relaxando os músculos no esôfago que não estão, geralmente, sobre o controle voluntário.

Mulher Barbada, sem data (c. 1900), Coleção Família Coolen, Antuérpia/Museu Dr Guislain, Ghent, Bélgica

Mulher Barbada, sem data (c. 1900), Coleção Família Coolen, Antuérpia/Museu Dr Guislain, Ghent, Bélgica
Outras imagens que chamam a atenção são a do bezerro de duas cabeças, a do cyclope, a da mulher barbada, a dos anões e a das irmãs siamêsas. Essas últimas são imaginadas através de uma ilustração e de um recorte de jornal do dia 4 de julho de 1936 que anuncia a morte de uma delas. A outra irmã estava bem de saúde, na ocasião do acontecido, mas muito abalada com o falecimento da companheira, que agora tinha que carregar por onde fosse. Os médicos se preparavam para proceder a cirurgia. Já a exposição da mulher barbada era comum em shows no século XIX e início do XX. Elas, provavelmente, sofriam de uma desordem congênita conhecida como “síndrome do lobisomem”.
Já os cyclopes eram pessoas com um olho só, no meio da testa. Embora raros, muitos bebês cyclopes foram preservados em museus de anatomia. A condição é geralmente fatal.

cyclope
A associação entre esses corpos e o teatro de entretenimento é típica. Para H. Fouquier (La Vie Parisienne, Paris, 1887), “o então chamado entretenimento científico é muito frequentemente uma simples desculpa para mostrar às pessoas coisas peculiares que mais propriamente causariam escândalo…Eu prefiro pensar que, para muitos visitantes, homens e mulheres, essas figuras estão meramente lá para nutrir suas fantasias sujas”.

Poster da Coleção Roca
Clicando aqui você encontra imagens da exposição que não podiam ser fotografadas. Para ver o vídeo com a curadora Kate Forde clique nesse link. Leitores que compreendem inglês podem checar a matéria do The Guardian e o blog Morbid Anatomy.

irmãs siamesas

irmãs siamesas












