maíra spanghero


The Song
22/11/2009, 10:49 PM
Arquivado em: mexe que eu gosto, reportagem afetiva | Tags: ,



verborragia de uma fala muda

Bélgica, 19 de novembro de 2009.

Fui até o balcão e fiz a pergunta básica, “parlez vous anglais?” Diante da resposta positiva, fiz a segunda pergunta, desta vez em inglês, “qual a melhor cerveja que você tem?”, “regular or strong?”, “strong”. Ele me mostrou/ofereceu a Duvel, explicando/avisando que era 8,5% alcoólica. Eu assenti sem pestanejar e o homem que estava ao lado arregalou as sobrancelhas. O barman serviu o líquido num copo bonito, de boca larga, bem como eu gosto e falou, também sem pestanejar, “são 3 euros”. Cá estou eu bebendo minha primeira cerveja belga, na Antuérpia.

Ufa!

Foi um dia…emocionante, difícil. Cheguei na Gare du Midi com os ponteiros colando nas 9 horas. Eu não sabia mas Bruxelas me esperava com um lindo dia de sol. Minha mala, embora pequena e com rodinhas, não me permitia longas caminhadas. Eu tinha instruções de como chegar no meu bed & breakfast mas o dono da casa só estaria lá para me receber uma e meia da tarde. Resolvi observar o ambiente, ir ao banheiro, tomar um chá com croissant, encontrar um mapa e entender como sair dali. A “central de informações para turistas” (o que não era bem o meu caso, voilá) se resumia a um posto redondo com dois guichês, cada um com informações diferentes. Peguei o mapa, depois de ter pedido no balcão errado: “você tem que falar com o jovem ali (apontando para suas costas), eu sou o homem velho”. Eu diria “o homem careca”, para resumir a história, eu voltei lá três vezes até conseguir me achar. Embora falássemos inglês, a comunicação era “improvável”, como diz certo teórico da área. Na segunda vez, cheguei dizendo “oi, old man”, ele riu e me reconheceu. Na terceira vez, ele saiu do guichê e foi andando comigo até a escada rolante. Como pode uma estação internacional ter apenas um ponto de informação e, como pode um dos dois funcionários disponíveis abandonar o posto para me ajudar? (Isso não tem preço) Demorei mas entendi a lógica do metrô. Ou melhor, cruzei as informações que tinha: o “como chegar” do bed&breakfast com as sinalizações da estação. Consegui até comprar sozinha o bilhete do transporte. Yes, nós temos bananas!

Peguei o metrô, que anda mais a céu aberto, que dentro da terra. Claro que desci no ponto errado, como toda boa DDA distraída. Quer dizer, verdade seja dita: as dicas do B&B estava erradas/insuficientes. Eu tentei perguntar para um senhor, ele não entendeu meu inglês, ou inglês. Esperei o ‘tram’ parar para falar com o motorista, ele custou a entender, todo mundo dentro esperando, até que ele disse que era preu descer. Obedeci, sem pestanejar.

Depois fiquei feito barata tonta tentando encontrar vivas e acordadas almas que falassem uma pitadinha de inglês. Detalhe: a mala ter rodinhas não foi de grande ajuda. O chão é todo irregular, com paralelepípedos grandes, coisa antiga. A cidade é tão tranquila (ao menos nessa região) que, carro, ônibus, tram e bicicleta dividem/ocupam o mesmo espaço mas nunca ao mesmo tempo. No máximo, o carro anda com o trem no trilho do lado. E eu puxando, puxando, puxando minha mala com alça e com rodinhas…

O primeiro homem que me informou uma rua perto da Rue Verhas parecia estar correto mas quando eu parei na farmácia a mulher grávida (e que só falava francês) me fez voltar e, no ponto de tram/bus, uma muçulmana simpaticíssima (que falava inglês e achou que eu era árabe) me mostrou a rua que eu deveria pegar, a mesma que a mulher da farmácia me fez voltar. Quando atravessei a rua e os trilhos, uma mulher me interpelou falando francês. Queria saber se eu estava bem, se eu tinha achado meu rumo porque tinha me visto para lá e para cá. Não me pergunte como entendi o que ela falou. A comunicação é inexplicável, eu diria.

Lá fui eu. Na esquina seguinte, três homens jogavam conversa fora. O mais assanhado deles me olhou como um brasileiro sem-vergonha me olharia. Eu ataquei: parlez vous anglais? Mais ou menos. Mas o suficiente para não conhecer a rua que eu ia mas para carregar minha mala até um cyber café um tanto chechelento. Ôba! Internet, alguma coisa familiar para acalmar meus sentidos exaustos de tantos estímulos novos + uma noite pouco dormida.

Ledo engano. O teclado francês é coisa do outro mundo e meu curso de datilografia feito no tempo que o computador ainda não era tão popular assim, de repente…caducou. Lá estava eu catando feijão, milho…

Numa hora dessas, o melhor a fazer é dar um alozinho para sua mãe, se você ainda tem uma. Entrei em uma das cabines logo atrás da fila de computadores depois de trocar a mais maluca das comunicações com o turco (ou marroquino?) responsável pelo lugar. Minha mãe não estava. que legal. Apelei para minhas frases tipo “não falo francês mas sou esforçada/educada”: “indiquez pour moi a restaurant, svp”. O cara foi até a porta e apontou para um “asian fast food” do outro lado da rua. Acho que quando você não sabe para onde ir, não conhece ninguém, não tem dinheiro para gastar com taxis caríssimos (ou prefere guardá-lo para livros, cervejas e chocolates), não tem namorado para carregar sua mala, sua mãe não está e você não entende lhufas de nada…o melhor é…comer alguma coisa. Pelo menos você terá uma sensação de “preenchimento” indescritível”. (Agora estou bebendo uma “Vedett” extra blond e o copo é diferente. Cada macaco no seu galho e cada cerveja no seu copo!)

Bom, o atendente falava um inglesinho razoável e eu avisei que era vegetarian e ele perguntou o tamanho da minha fome. De regular para large. Ele sugeriu noodles, o que significa um macarrão menos enroladinho que o miojo misturado com meio ovo mexido, raspas de cenoura, uma dúzia de broto de feijão (literalmente) e umas coisinhas verdinhas que preferi não identificar. Era muito macarrão e um pouco de shoyo, não muito. Convém registrar, o prato era grande e custou 6,50 euros. Não sei bem porque mas, foi dar a primeira garfada e começar a chorar. Aliás, eu sei o porquê: faltava sal na comida. Além do mais, vale muito a pena chorar num restaurante vazio onde ninguém te conhece e você não conhece ninguém. Isso, de algum modo, te universaliza.

Sem lágrimas no reservatório e com o estômago cheio pisei novamente na calçada com minha mala de rodinhas. Eu queria colocar créditos no meu “Vodafone sim card”, já que meu “Orange” não se comunicava com os belgas de jeito nenhum. Já pensou meu desespero se eu só tivesse as (deliciosas) cartas como opção? (ou será que não há nenhum desespero nisso?) Quinze minutos depois, cinco euros jogados fora e mais uma aventura comunicacional com o amável barrigudo do que chamaríamos de “mercadinho da esquina” no Brasil e eu continuava “incomunicável” com o mundo. Que mundo, meu deus do céu?!

arranha-céu

(Liguei para meu coração partido.)

Convém registrar que o rapazinho do inglesinho razoável do asian fast food me ajudou a entender as ruelas “bruxelosas” e eu fui andando com o ploc, ploc das rodinhas no meu ouvido e, cinco minutos antes do combinado, eu cheguei na Rue Verhas 11 junto com meu “hospedador”.

Como será que nos reconhecemos sem nunca termos nos visto? Meio óbvio. Eu parada na frente da sua porta com minhas rodinhas e ele descendo das rodas da sua bicicleta, ambos pontuais.

(os bailarinos do The Song estão jantando na mesa ao lado)

Simpático, baixinho e magricela, Adi é um “quirido”, como diriam os amantes de Nossa Senhora do Desterro. Abre a porta da casa do século XIX (reformada em 1994) e carrega minha mala que parece mais pesada que ele, ainda que a dica de ouro do Dauro tenha sido considerada. A casa tem vários andares e eu esperei no térreo, na grande sala com cozinha e quintal,  enquanto ele limpava meu quarto. Esperei feliz da vida, brincando com seus três adoráveis gatos, todos ronronando e me dando atenção. Como diria Garfield, “é difícil ser gostosa, mas alguém tem que ser”, não é mesmo?

frente da casa

Ginger (ciumenta, precisa de atenção só para ela)

Socks (carinhosa, respeitosa, ronrona, ronrona...)

(Clarence não quis ser fotografada, é tímida, super na dela mas MUITO afetiva se você faz contato)

Adi me avisou que o quarto estava pronto. Subimos quatro lances de escada (ele carregou a mala, lógico) até chegarmos no meu agradabilíssimo quarto, com mezanino e tudo o mais. Nada como ser visitante numa “verdadeira” casa belga. Depois de me passar todas as “instruções” (como abrir e fechar a porta) e me perguntar que horas queria meu café da manhã (café ou chá? chá), ele me deixou a vontade para fazer minha bagunça de praxe.

Escovei os dentes e parti em poucos minutos para pegar o trem das três para Antuérpia. Consegui encontrar o caminho, consegui um falante de língua inglesa no ponto e lá fui encontrar o Carlos Garbin, bailarino brasileiro da companhia Rosas!

vista do trem

da janela do trem

mais arranha-céu

estação na Antuérpia (uau)

na frente do teatro

a imagem não tem edição

teatro

pronta para assistir The Song

entrevista com a anne teresa de keersmaeker

The Song

Muitas aspas, reticências, exclamações, interrogações e sem ponto final



CORPOS CUIDADOSAMENTE SELECIONADOS
23/10/2009, 2:25 PM
Arquivado em: corpo, reportagem afetiva | Tags: , ,

(Este texto é proibido para menores de 18 anos. Leitores podem considerar incômodas descrições e imagens aqui contidas)

Vênus de Cera - figura anatômica feita em Florence, 1771-1800, Cortesia do Science Museum, Londres

Vênus de Cera - figura anatômica feita em Florence, 1771-1800, Cortesia do Science Museum, Londres

Um livro grande e corpulento está aberto e mostra uma ilustração com sobreposições. Uma imagem sobre a outra. Você pode abrir o tórax para ver o que tem dentro. “Uma Pesquisa sobre o Microcosmo; ou, A Anatomia de Corpos de Homem e Mulher”, de 1702, é um dos intrigantes materiais disponíveis na exposição Exquisite Bodies or the Curious and Grotesque Story of the Anatomical Model.

 

O nome é muito adequado ao que exibe: exquisite vem do latin exquisitus e sua origem está no século XV. Ex + quaerere = procurar. Também pode ser traduzido como “cuidadosamente selecionado”, “marcado por impecável maestria ou por execução elaborada, ingênua e bela”, “extremo”. Realizada pela excelente Wellcome Collection, uma instituição interessada em debater assuntos ligados a arte-ciência, medicina e saúde, a exposição reuniu inúmeros objetos (pinturas, desenhos, fotografias, livros entre outras peças) e muitas informações para mostrar um pouco da história dos modelos anatômicos e a relação humana com a cura, a morte, a doença, a saúde e a vida. Os objetos são preciosas peças ‘arqueológicas’ e nos contam histórias que vão além delas próprias. Falam de seu contexto, dos entendimentos culturais e científicos em voga, das crenças, dos preconceitos. São objetos curiosíssimos ou apenas para os indubitavelmente curiosos.

imagem da exposição

imagem da exposição

A exposição traçou um apanhado dessa história desde do início com as estranhas obras de arte patrocinados pelo Duque de Tuscany e considerados na sociedade vitoriana como trabalhos imorais e pornográficos. Segundo informações divulgadas pelo evento, no século XIX, a despeito dos melhores esforços dos body snatchers (aqueles que roubavam corpos das covas), a demanda vinda das escolas de medicina por cadáveres frescos estava longe de ser rapidamente atendida. Uma solução para esse repulsivo problema surgiu na forma de modelos de cera que imitavam e representavam os corpos. A mistura, portanto, entre “ciência séria” e “circo dos horrores” revela crenças sobre fragilidade, sexualidade e sobre a “divina arquitetura” existentes nesse mesmo século XIX.

 

Extração da placenta: ilustrando os estágios do nascimento de um bebê (c.1900) Coleção Família Coolen, Antuérpia/Museum Dr Guislain, Ghent, Bélgica

Extração da placenta: ilustrando os estágios do nascimento de um bebê (c.1900) Coleção Família Coolen, Antuérpia/Museum Dr Guislain, Ghent, Bélgica

Museus de modelos anatômicos ficaram populares entre os europeus que procuravam um entretenimento diferente para ocupar as tardes. Em Londres, Paris, Bruxelas e Barcelona, o público poderia aprender sobre as estruturas internas do corpo, seu sistema reprodutivo e sua vulnerabilidade para doenças através de peças dispostas que combinavam ciência com horror. Pagando uma pequena taxa, até pessoas com ganhos escassos poderiam ter acesso a conhecimentos até então restritos aos nobres e aos estudantes da área. Porém, na metade final do século XIX, os museus de anatomia foram acusados de obscenidade e campanhas moralistas provocaram mudanças e as coleções de modelos de cera foram, então, absorvidas em novas esferas do entretenimento: feiras ao ar livre e circos.

Não sei bem o porquê, mas a grandissíssima maioria dos modelos ali expostos (e os que eram produzidos) eram de figuras femininas que podiam ser fragmentadas e despedaçadas em diferentes partes. Muitas réplicas revelam os estágios da gestação humana e do nascimento, o que revela interesse e fascinação enormes pelos mistérios da concepção. Outros modelos eram mais “macabros” e mostravam o corpo com doenças que eram consideradas “sociais”, como a sífilis, a tuberculose, o vício de drogas e bebida.

 

Cabeça mostrando sífilis, c.1900, Coleção Família Coolen

Cabeça mostrando sífilis, c.1900, Coleção Família Coolen

Um dos mais famosos museus de anatomia do século XIX em Londres foi o de Joseph Kahn, que atraiu mais de 200 visitantes por semana no auge de sua popularidade. Kahn, que era médico vindo da Alsace, veio para a cidade em 1851 e estabeleceu seu Museu Anatômico e Patológico no número 315 da Oxford Street. Sua coleção incluía modelos mostrando o desenvolvimento do feto humano, réplicas em tamanho natural do Apollo Belvedere e Vênus de Medici, além de numerosas espécimes ilustrando as “doenças da imprudência” e os “terríveis efeitos do onanismo”. Para complementar os objetos expostos, palestras eram promovidas diariamente sobre assuntos como dieta, embriologia e saúde sexual.

Um poster datado de 1854 anuncia a exibição do novo modelo anatômico “florentine” sob a palavra de ordem “conheça a si mesmo”. Mulheres podiam assistir a demonstração, comandada por Mrs Baker, duas vezes por semana, às terças e sextas, enquanto os homens tinham tinham o direito de escolher entre segunda, quarta e quinta mas com a demonstração do marido da senhora Baker.

 

modelo do engolidor de espada

modelo do engolidor de espada

Entre desenhos, páginas de livros antigos e modelos do corpo humano feitos de cera, você se depara com um engolidor de espada, engolindo a própria, como o tórax e o abdômen abertos para mostrar o trajeto do objeto. É uma espécie de reprodução explicativa com fios atados nas partes do corpo que conectam-se a plaquinhas com o nome do órgão. Performers que eram capazes de passar uma longa peça de metal para dentro do estômago aprenderam a reprimir o reflexo da garganta e a controlar a ânsia de vômito relaxando os músculos no esôfago que não estão, geralmente, sobre o controle voluntário.

 

Mulher Barbada, sem data (c. 1900), Coleção Family Coolen, Antuérpia/Museum Dr Guislain, Ghent, Belgium

Mulher Barbada, sem data (c. 1900), Coleção Família Coolen, Antuérpia/Museu Dr Guislain, Ghent, Bélgica

 

Outras imagens que chamam a atenção são a do bezerro de duas cabeças, a do cyclope, a da mulher barbada, a dos anões e a das irmãs siamêsas. Essas últimas são imaginadas através de uma ilustração e de um recorte de jornal do dia 4 de julho de 1936 que anuncia a morte de uma delas. A outra irmã estava bem de saúde, na ocasião do acontecido, mas muito abalada com o falecimento da companheira, que agora tinha que carregar por onde fosse. Os médicos se preparavam para proceder a cirurgia. Já a exposição da mulher barbada era comum em shows no século XIX e início do XX. Elas, provavelmente, sofriam de uma desordem congênita conhecida como “síndrome do lobisomem”.

Já os cyclopes eram pessoas com um olho só, no meio da testa. Embora raros, muitos bebês cyclopes foram preservados em museus de anatomia. A condição é geralmente fatal.

cyclope

cyclope

A associação entre esses corpos e o teatro de entretenimento é típica. Para H. Fouquier (La Vie Parisienne, Paris, 1887), “o então chamado entretenimento científico é muito frequentemente uma simples desculpa para mostrar às pessoas coisas peculiares que mais propriamente causariam escândalo…Eu prefiro pensar que, para muitos visitantes, homens e mulheres, essas figuras estão meramente lá para nutrir suas fantasias sujas”.

 

Poster da Coleção Roca

Poster da Coleção Roca

Clicando aqui você encontra imagens da exposição que não podiam ser fotografadas. Para ver o vídeo com a curadora Kate Forde clique nesse link. Leitores que compreendem inglês podem checar a matéria do The Guardian e o blog Morbid Anatomy.

irmãs siamesas

irmãs siamesas

 




FUN THEORY
17/10/2009, 10:20 AM
Arquivado em: mexe que eu gosto, porta-treco

Escada de metrô em Estocolmo é transformada em piano.



No escuro

no escuro

Essa, com certeza, será daquelas experiências que ficará para sempre na categoria das “inesquecíveis”. Afinal, não é todo dia que se janta num lugar absolutamente escuro sendo servida por garçons…cegos! Aliás, quem foi que disse que se come com os olhos?

Pois é exatamente esse o diferencial do restaurante Dans Le Noir? que tem endereço certo em Paris e Londres (em breve, filiais em Barcelona e Nova Iorque). Se você gostou da ideia, a primeira coisa a fazer é reservar o seu lugar via e-mail ou telefone com antecedência e aguardar pela confirmação. Foi o que fiz. Esperei, curiosa, pelo compromisso mais esperado da semana.

Ao chegar no lugar, fomos, eu e meu amigo, recepcionados por uma moça que falava inglês com forte sotaque francês. Ela nos orientou a deixar nossas bolsas, casacos e celulares num armário com chave logo do nosso lado. Entregamos nossos cartões de crédito e, enquanto nossa mesa era preparada, fomos levados para um bar lounge, onde bebericamos e escolhemos o menu entre carne, peixe, vegetariano ou surpresa. Os cardápios têm preço fixo e é possível combinar e selecionar as seguintes opções: entrada, bebida, prato principal e/ou sobremesa. O detalhe é que você não sabe mais nada a não ser qual menu escolheu, ou seja, não sabe que tipo de carne, com que acompanhamento ou  molho.

Eu estava ansiosa, meu amigo também. Após uma meia-hora, resolvemos perguntar quanto tempo ainda ficaríamos no lounge e a moça foi checar se nossa mesa estava pronta. Estava. Voltamos para o hall de entrada do restaurante, onde nos juntamos a uma outra dupla. Fomos orientados a formar uma fila, braço direito no ombro direito da pessoa a nossa frente. Fomos, também, apresentados ao Takashi, o nosso garçom, que nos deu as boas vindas e algumas instruções do tipo: caso quiséssemos fazer algum pedido extra ou perguntar algo, deveríamos chamá-lo pelo seu nome. Nos apresentamos e ele abriu uma cortina por onde passamos e entramos, um atrás do outro, num corredor escuro.

A sensação é indescritível. Ser guiado por um cego tem um impacto enorme no sistema sensório-motor de seres que se orientam, sobremaneira, pelo visual. Essa inversão de condição tem conseqüências radicais para os que enxergam e para os que não enxergam. Esse corredor não era totalmente escuro, mas quando entramos no ambiente do restaurante, passando por uma porta, não dava para enxergar absolutamente nada. Nem o seu nariz. A escuridão era total e irrestrita. Nem se ficássemos ali 3 horas, não daria para enxergar nadica de nada, nem um vulto, num uma sombra, como quando acontece no escuro do quarto de dormir. A ausência de luz era completa e eu estava….cega.

Takashi nos colocou, um a um, em nossos lugares. Ele sabia como direcionar sua voz e eu sabia quando ele falava comigo. Pegando no meu braço, ele indicou onde havia uma cadeira para eu me sentar. Lá fui eu. Tateei, puxei e me acomodei. Agradeci o fato de não ter nenhuma bolsa, casaco ou celular comigo. Sentei e passei a mão ao redor. Percebi que havia uma mesa na minha frente. Chamei pelo meu amigo, estava com medo de ficar sozinha no escuro e sem ninguém conhecido por perto. Ele estendeu a mão pela borda da mesa e minha mão encontrou a dele. Ufa, ele estava na minha frente.

Notamos a existência de dois copos, grandes e pesados. Takashi trouxe o vinho e disse ao meu amigo que tomasse conta dele. Para facilitar, e compreendemos o porquê disso imediatamente, a taça era, na verdade, um copo redondo e largo. Meu amigo disse que iria me servir e eu estendi o copo na minha frente. Mas, como ele iria saber aonde estava o copo? Com a outra mão, eu tentei encontrar a garrafa e ele fez o mesmo, tentando encontrar meu copo. Notei que ele enfiou o gargalo da garrafa dentro do corpo e virou um pouco. Disse que já tinha me servido e eu coloquei o copo na boca mas a bebida não veio. Coloquei um dedo dentro e tinha apenas um tiquinho mas a sensação que ele tinha era de ter enchido. Tentamos mais uma vez e ele derramou tanto que quase caiu para fora. Rimos. O vinho era delicioso. Preferimos deixar a escolha para o chef (que por sinal não era cego), de acordo com o cardápio de peixe que solicitamos (avisei antes que não comia pimentão). Percebemos que o ambiente estava extremamente barulhento e que as pessoas falavam alto demais para uma experiência tão intimista quanto esta. Mais tarde, soubemos que as pessoas, para compensar a ausência da visão, acabam falando mais alto que o normal, além, suponho eu, dos efeitos que as bebidas geram.

Logo depois, Takashi voltou e avisou que serviria nossas entradas. Colocou meu prato na mesa, sempre falando comigo e dizendo o que faria e depois o do meu amigo, nos desejando “bom apetite”. O cheiro era delicioso. A primeira iniciativa que eu tive foi a de tatear o prato com a mão para saber onde ele havia sido colocado exatamente. Ok, bem na minha frente. Percebi que o prato era grande e quadrado, talvez para facilitar a identificação de sua posição porque, caso fosse redondo, ficaria mais difícil de localizar sua relação com o espaço. Encontrei o garfo e “às cegas” tentei garfar alguma coisa. Coloquei o ditocujo na boca – nessa hora meu amigo brincou “será que vou encontrar minha boca?” – e…vazio. Repeti o procedimento umas cinco vezes e o garfo vinha sempre vazio. Ao menos, eu tinha conseguido acertar a boca. Saquei que minha estratégia não estava funcionando. Assim sendo, coloquei os dedos no prato até que eles encostassem em alguma coisa. Identifiquei algo cremoso como um molho e uns pedaços de alguma comida. Empurrei para o garfo e, finalmente, experimentei a primeira bocada, lambendo depois os dedos. Uma delícia! Descobri uns camarões empanados, também muito saborosos, e fiquei imaginando qual seria a disposição das coisas. Como o procedimento de colocar a mão e os dedos no prato funcionou – ainda que qualquer mãe torcesse o nariz (no escuro não ia mesmo dar para ver o seu nariz torcido) – eu continuei mais um pouco assim até que…abandonei de vez o garfo. Estava comendo com as mãos! Era mais eficiente e eu podia sentir texturas e temperaturas, antes de colocar na boca. O guardanapo de pano, imprescindível, é grande e aderente, o que deve ser proposital.

Perguntei ao meu amigo, que é uma pessoa educada e muito contida publicamente, como ele estava se virando. Ele riu, disse que estava, como eu, comendo com as mãos e bebendo o vinho no gargalo. Eu gargalhei. A experiência de comer no escuro parecia ser psicologicamente libertadora também! Apenas lamentei quando percebi que tinha comido toda a entrada. De tão gostosa, eu queria aproveitar tudo até o fim e anunciei em bom tom: vou lamber o prato! Eu não vi mas acredito que meu amigo tenha feito o mesmo.

Dali a pouco, Takashi voltou perguntando se poderia retirar os pratos para servir o principal. Prontamente concordamos e eu, ainda reforcei, fazendo “sim” com a cabeça (risos). Muito melhor do que a gente, Takashi foi direto, preciso e pegou os pratos, um de cada vez. Sempre se dirigindo atenciosamente a um e ao outro, ele nos serviu o principal. Como cheirava bem e eu era capaz de sentir o calor da fumacinha! Descobri que meu corpo estava melhor adaptado à situação e já reconhecia melhor as distâncias entre mim e o prato, o copo e a garrafa. Tentávamos adivinhar o que comíamos e, pelo menos eu, tinha esquecido completamente da existência do garfo. Lamber os beiços e os dedos nunca foi tão bom. Reconheci um pedaço de beringela e fiquei felicíssima. Os pedaços de peixe estavam suculentos e cabiam inteiros na boca. Com certeza, devia ser premeditado, já que usar a faca não seria muito recomendável para seres sub-desenvolvidos-predominantemente-visuais. Fiquei curiosa para saber a cor das comidas que ali estavam dispostas e aposto que estavam visualmente bonitas (ao fim da experiência, é possível ver fotos do que foi comido).

Melhor que isso eram os cheiros, as texturas e os sabores. Só provando para saber. Lambi o prato de novo, lamentando terrivelmente que estivesse terminado. O gole de vinho cresceu na minha boca. Entre uma garfada, digo “dedada” e outra, comentávamos sem parar o que sentíamos. Cada conquista motora do nosso corpo era apreciada em detalhes. Peguei a garrafa de vinho e notei que tinha acabado.

Takashi perguntou se queríamos mais alguma coisa. Arrependi-me amargamente de não ter o costume de comer sobremesa e prometi que voltaria outra vez só por conta disso. Não me dei conta de quanto tempo ficamos ali mas me sentia expandida, como se houvessem orelhas por todo o meu corpo e como se dedos saíssem dos meus olhos. A negritude era agora leve e eu estava segura e confortável sendo guiada pelo meu querido garçom cego, um imigrante do Japão. Ele nos ajudou a levantar, nos orientou em que direção girar o corpo e quando deveríamos andar. Enquanto caminhava, podia ouvir as pessoas ao redor mas não esbarrei em nenhuma delas, nem em nada. Meus passos estavam diferentes. Eu tinha outra confiança no mundo.

Cruzamos a porta, onde pude ver que estava escrito algo como “absolutamente proibido ultrapassar essa porta sozinho”. Estávamos de volta à penumbra do corredor e, a seguir, diante da cortina que nos devolveria ao mundo dos que precisam de olhos. Agradeci com devoção à experiência ao Takashi e cruzei a cortina.

Nunca mais fui a mesma.



objeto coreográfico
04/10/2009, 4:50 PM
Arquivado em: mexe que eu gosto, reportagem afetiva

Publiquei um texto no site do Idança chamado “Corra seu risco” a respeito da nova instalação do coreógrafo William Forsythe, na Bienal de Veneza. O texto gerou um interesse pelo termo objeto coreográfico e a discussão continua aberta. A seguir, apresento algumas imagens que fotografei de Scattered Crowd (2002) e The Fact of Matter (2009). Mais imagens estão disponíveis clicando aqui. Outra dica de texto vem da Bianca Scliar.

mairaspanghero_the fact of matter02

the fact of matter2

DSC04007

Scattered Crowd (Focus on Forsythe, Sadle’s Wells, Londres, 2009)

DSC03995

Forsythe na abertura da instalação, 2009.

DSC04055