maíra spanghero


o dia em que acionei o alarme de incêndio

pressione a bolinha preta

Londres, 16 de janeiro de 2010.

Nossa, tanta coisa aconteceu. Pensei tantas frases que queria escrever. Que intensa vida mental eu tenho! Vou começar por ontem. Encomendei meu duvet (não sei antes ficar em dúvida se deveria ou não comprar um de penas de ganso, já que me imagino ativista dos direitos dos animais…talvez eu não seja lá isso tudo…) e encomendei também um tampão de ouvido tamanho pequeno já que o médio chegou e me incomodou. Estava tão de saco cheio desse barulho da caixa de incêndio desregulada, mas tão de saco cheio que desejei comprar uns três modelos diferentes de tampão de uma só vez! Inclusive daqueles super avançados para bateristas não ficarem surdos, sabe?

O tempo corre rápido e a produção da vida toma um tempo danado! Quase não consigo me concentrar na pesquisa, embora ela esteja sempre nos meus pensamentos. Isso me incomoda, minha dispersão, ao mesmo tempo, que me vejo tão cheia de ideias! Poderia ter trabalhado se não tivesse saído para encontrar o Charles. Levei os regalos para ele. Nos encontramos na lojinha da parte moderna da National Gallery e, claro, não resisti e comprei um livrinho sobre o número de ouro e um guarda-oyster.

Depois fomos no ICA (Institute of Contemporary Arts) e sempre acho meio meia boca as exposições de lá. Ou, acho que não me conecto muito mas gostei de um rato de pelúcia que respirava, deitado no chão, enquanto dormia. Mas o que gosto mesmo é daquela lojinha, que é pequenininha e cheia de livros ótimos, cartões incríveis, DVDs e outras coisinhas mais…comprei outro guarda-oyster, aliás, dois, e uma caneta. Tomamos um drink e fomos andando até o Soho. O Charles ia me levar num restaurante belga, o Belgo, já que eu me mostrei muito animada com o halp pint de Leffe, coisa que nunca tinha visto por aqui. Aliás, só vendem half porque é forte e não dá para beber quente (coisa que os ingleses adoram).

Comemos, bebemos e conversamos bastante. Adoro as histórias dele, adoro! Me lembra o tempo do Mário Fofoca. E ele tem uma memória incrível para detalhes. Tenho vontade de escrever coisas que ele conta. Quem sabe…um dia…

Caminhamos até o metrô Tottenham Court Road e peguei minha northern-line-rumo-south-london para Balham. Chegando em casa, perto das dez e meia, e nauseada com o barulho da fire box, eu tive um ato impulsivo, tipo sem-querer-querendo…pressionei de leve a superfície do alarme e a porra imediatamente disparou um barulho dos infernos!!! Subi as escadas correndo (feito criança) para ninguém descobrir que tinha sido eu. O ruído era ensurdecedor e apitava em todos os flats da casa (são 4 ao todo). Liguei para o Charles e falei baixinho “acho que fiz uma besteira”. Ele respondeu, “fica quieta, apaga a luz, que alguém vai ligar para avisar e alguém virá resolver o problema, se alguém bater na sua porta, atende e diz que a dona não está e que você é prima dela”. Ok.

Me fechei no quarto com meu computador e fui responder email para tentar me distrair do barulho dos infernos. Por que você foi fazer isso, Maíra? Agora nem dormir você vai conseguir e antes, com o chato do pi…pi…pi, você – pelo menos – conseguia, né? Ouvi meu vizinho descer escadas, vi a luz acesa e abri minha porta duas vezes na esperança de trocar umas palavrinhas com ele mas não o vi e o barulho era tão alto que não dava para ele me ouvir abrindo a porta (ou precisaria ser atento aos mínimos detalhes, como eu o sou, semiótica por natureza). A porra do alarme soou durante pouco mais de míseras uma hora e quarenta, e eu no computador com os tampões, que pouco adiantavam, além de doerem. Anyway, era melhor com eles do que sem eles.

pi...pi...pi...pi...pi...pi...pi...pi...pi...pi...pi...pi...

Será que nenhum bombeiro forte e bonitão vai aparecer, caramba? Nem aquele carro vermelho, igual ao do Lego e da Praça dos Bombeiros, lá em Floripa?

De vez em quando eu ia na janela olhar e nada. Nada de bombeiro, nada de bonitão e nada do alarme se acalmar. Para falar a verdade, eu já tinha me imaginado várias vezes segurando um martelo e quebrando aquela maldita caixa de incêndio, que nem quando faltou eletricidade e eu quase congelei em pleno inverno londrino, o barulho parou. Realmente, dá mesmo para confiar nas caixas de incêndio produzidas nos países altos, viu, gente? Se você estiver sem luz, sem água quente, sem aquecimento, sem internet, sem aparelho de som, sem TV, sem namorado e seu flat pegar fogo, alguém vai te salvar (talvez não um bombeiro bonitão) porque o alarme vai funcionar!

Cabe registrar que a moçoila aqui já tinha tentado inúmeras formas de resolver o problema. Já tinha ligado para o service number vááárias vezes e nunca ninguém atendeu. Já tinha falado com a vizinha e, na opinião dela, tínhamos que esperar – e olha que o flat dela é mais perto do pipipi. Já tinha falado com a vovozinha querida do flat A, ela recomendou ligar. Estava eu tentando divagar sobre essas coisas quando…

De repente o alarme parou, eu respirei uma vez aliviada e ele voltou. A respiração travou. Depois o alarme parou. Segunda respiração aliviada. Isso aconteceu umas quatro vezes até o ditocujo parar de vez. Ufa! O barulho ensurdecedor, que nem John Cage e Hermeto Pascoal iam gostar, parou. Mas, comecei a ouvir alguma coisa…pi…pi…pi…pi. Não! O pi…pi…pi permaneceu e achei que era um pi…pi…pi diferente – afinal meus sentidos estavam alterados. Não é possível, ninguém merece. Só que, poucos minutos depois, até o pi…pi…pi parou de tocar. Tudo na maior elegância. Nada de gente gritando, nada de fofoqueiros fazendo muvuca na frente da minha moradia, nada de jornalista meia-boca, nada de palavrão e…sem bombeiro bonitão!

Moral da história: por que eu não apertei essa coisa antes?!?

(E agora escrevo com aquele velho e delicioso silêncio de sempre. O silêncio que vou sentir falta, quando estiver em São Paulo. Ô maravilha!)

Do diário “As Aventuras de MSF nos países altos e baixos”.



O SILÊNCIO DAS FORMAS
09/01/2010, 12:06 AM
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Untitled (2009), obra de Ann Veronica Janssens dentro da exposição  Serendipity no Wiels, em Bruxelas. Foto: Philippe de Gobert.

Encontrar a obra da artista inglesa radicada na Bélgica Ann Veronica Janssens foi um ato do serendipismo: uma descoberta feliz e inesperada! Aconteceu na Antuérpia, no teatro De Siegel, quando lá estava para assistir o espetáculo The Song (2009), uma colaboração bem-sucedida entre ela, a coreógrafa Anne Teresa de Keersmaeker e o artista belga Michel François. A sintonia é clara e fina: o interesse nas formas geométricas (especialmente o quadrado), na matéria que cria som e no movimento-espaço-tempo.

Fragmento de Untitled (Golden section), 2009. Foto: Maíra Spanghero.

Desenvolvido em parceria com Michel François durante a criação do espetáculo, Untitled (Golden section) não é realmente um trabalho para ser exposto numa galeria, dadas as circunstâncias de sua invenção. Quando a luz atinge essa espécie de cortina cintilante, produz reflexões difusas, irregulares e fascinantes que só podem ser vistas durante a apresentação da dança. Além disso, a cenografia também é usada para produzir sonoridade, transcendendo sua materialidade e dialogando com os corpos dos bailarinos.

Dá-se o nome de serendipity (serendipismo ou serendipidade, em português) à aptidão ou dom de atrair acontecimentos felizes ou úteis (ou de descobri-los por acaso). Muitos achados na ciência e na arte dependem dessa ocorrência. Serendipity é, também, o nome da exposição que Ann Veronica Janssens apresentou ao público no interessantíssimo Wiels, em Bruxelas, com curadoria de Charles Gohy, em 2009. A palavra que deu título à exibição foi cunhada em 1754, pelo escritor inglês Horace Walpole “a partir do conto de fadas Os três príncipes de Serendip, cujos heróis sempre faziam descobertas, acidentalmente ou por sagacidade, de coisas que não procuravam” (Houaiss). A palavra, tal como conhecemos hoje, deriva do antigo nome do Sri Lanka, Serendip ou Serendib (do árabe Sarandíb).

Liquid Bar, 2009. Foto: Maíra Spanghero.

Interessada no encontro do corpo com o espaço, a artista utiliza luz, sombra, som e cor para criar formas (ou será o contrário? ou será junto?) em esculturas, vídeos, instalações que só fazem sentido na medida em que afetam o corpo daquele que com esses objetos se relaciona. É nessa experiência sensorial, nessa desorientação e instabilidade promovidas na percepção do visitante, que suas obras se revelam e ganham sentido. Ao ser afetado, o corpo percebe/cria um outro espaço-tempo que se constrói dentro do ambiente onde as peças se encontram. Por isso, renda-se e permita-se para poder usufruir!

Chambre Anéchoïque, 2009. Foto: Maíra Spanghero.

Na instalação Chambre Anéchoïque, o visitante é convidado a entrar numa sala recoberta por uma superfície feita de material acústico absorvente, como se vê na imagem acima. Ou seja, quando você entra dentro dessa sala e lá é fechado, não escuta mais nenhum ruído. É uma experiência intensa e perturbadora, essa de ouvir o silêncio. Talvez, por isso, a duração desse conhecimento (o de ouvir o silêncio) obtido pelos sentidos seja de apenas um minuto. Lá dentro, sozinho, você é capaz de ouvir seus batimentos cardíacos ou seus pensamentos, o que pode ser insuportável para alguns e encantador para outros.

Sans titre, 1993. Foto: Maíra Spanghero.

BRANCO NO PRETO NO BRANCO. Luzes (e formas) piscam-crescem-desaparecem-diluem-somem-cegam-turvam. Entram para dentro de si e de mim. Vertigem, saturação, persistência da visão, velocidade, som. Alteram o espaço, criam espaço. Transformam minha percepção do tempo, de onde estou, do claro, do escuro. Pequenas imersões que fazem meus olhos enxergarem coisas que parecem não existir. Tonteiam-me. Acordam os sentidos e terminam por promover impresssões únicas e individualizadas. Por isso, esses trabalhos expostos provocam uma espécie de intimidade que se descortina, além de margear uma instabilidade entre o visual e o auditivo. Curiosamente, essas esculturas de luz e som (ou vídeos, se você preferir), na maioria das vezes, não podem ser fotograficamente capturadas, mas sim experimentadas. É o valor do encontro que conta e da memória que deixa.

NUM PISCAR

a luz pulsa minha pele

o preto me acolhe

Mais informações e imagens podem ser vistas clicando aqui.



The Song
22/11/2009, 10:49 PM
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verborragia de uma fala muda

Bélgica, 19 de novembro de 2009.

Fui até o balcão e fiz a pergunta básica, “parlez vous anglais?” Diante da resposta positiva, fiz a segunda pergunta, desta vez em inglês, “qual a melhor cerveja que você tem?”, “regular or strong?”, “strong”. Ele me mostrou/ofereceu a Duvel, explicando/avisando que era 8,5% alcoólica. Eu assenti sem pestanejar e o homem que estava ao lado arregalou as sobrancelhas. O barman serviu o líquido num copo bonito, de boca larga, bem como eu gosto e falou, também sem pestanejar, “são 3 euros”. Cá estou eu bebendo minha primeira cerveja belga, na Antuérpia.

Ufa!

Foi um dia…emocionante, difícil. Cheguei na Gare du Midi com os ponteiros colando nas 9 horas. Eu não sabia mas Bruxelas me esperava com um lindo dia de sol. Minha mala, embora pequena e com rodinhas, não me permitia longas caminhadas. Eu tinha instruções de como chegar no meu bed & breakfast mas o dono da casa só estaria lá para me receber uma e meia da tarde. Resolvi observar o ambiente, ir ao banheiro, tomar um chá com croissant, encontrar um mapa e entender como sair dali. A “central de informações para turistas” (o que não era bem o meu caso, voilá) se resumia a um posto redondo com dois guichês, cada um com informações diferentes. Peguei o mapa, depois de ter pedido no balcão errado: “você tem que falar com o jovem ali (apontando para suas costas), eu sou o homem velho”. Eu diria “o homem careca”, para resumir a história, eu voltei lá três vezes até conseguir me achar. Embora falássemos inglês, a comunicação era “improvável”, como diz certo teórico da área. Na segunda vez, cheguei dizendo “oi, old man”, ele riu e me reconheceu. Na terceira vez, ele saiu do guichê e foi andando comigo até a escada rolante. Como pode uma estação internacional ter apenas um ponto de informação e, como pode um dos dois funcionários disponíveis abandonar o posto para me ajudar? (Isso não tem preço) Demorei mas entendi a lógica do metrô. Ou melhor, cruzei as informações que tinha: o “como chegar” do bed&breakfast com as sinalizações da estação. Consegui até comprar sozinha o bilhete do transporte. Yes, nós temos bananas!

Peguei o metrô, que anda mais a céu aberto, que dentro da terra. Claro que desci no ponto errado, como toda boa DDA distraída. Quer dizer, verdade seja dita: as dicas do B&B estava erradas/insuficientes. Eu tentei perguntar para um senhor, ele não entendeu meu inglês, ou inglês. Esperei o ‘tram’ parar para falar com o motorista, ele custou a entender, todo mundo dentro esperando, até que ele disse que era preu descer. Obedeci, sem pestanejar.

Depois fiquei feito barata tonta tentando encontrar vivas e acordadas almas que falassem uma pitadinha de inglês. Detalhe: a mala ter rodinhas não foi de grande ajuda. O chão é todo irregular, com paralelepípedos grandes, coisa antiga. A cidade é tão tranquila (ao menos nessa região) que, carro, ônibus, tram e bicicleta dividem/ocupam o mesmo espaço mas nunca ao mesmo tempo. No máximo, o carro anda com o trem no trilho do lado. E eu puxando, puxando, puxando minha mala com alça e com rodinhas…

O primeiro homem que me informou uma rua perto da Rue Verhas parecia estar correto mas quando eu parei na farmácia a mulher grávida (e que só falava francês) me fez voltar e, no ponto de tram/bus, uma muçulmana simpaticíssima (que falava inglês e achou que eu era árabe) me mostrou a rua que eu deveria pegar, a mesma que a mulher da farmácia me fez voltar. Quando atravessei a rua e os trilhos, uma mulher me interpelou falando francês. Queria saber se eu estava bem, se eu tinha achado meu rumo porque tinha me visto para lá e para cá. Não me pergunte como entendi o que ela falou. A comunicação é inexplicável, eu diria.

Lá fui eu. Na esquina seguinte, três homens jogavam conversa fora. O mais assanhado deles me olhou como um brasileiro sem-vergonha me olharia. Eu ataquei: parlez vous anglais? Mais ou menos. Mas o suficiente para não conhecer a rua que eu ia mas para carregar minha mala até um cyber café um tanto chechelento. Ôba! Internet, alguma coisa familiar para acalmar meus sentidos exaustos de tantos estímulos novos + uma noite pouco dormida.

Ledo engano. O teclado francês é coisa do outro mundo e meu curso de datilografia feito no tempo que o computador ainda não era tão popular assim, de repente…caducou. Lá estava eu catando feijão, milho…

Numa hora dessas, o melhor a fazer é dar um alozinho para sua mãe, se você ainda tem uma. Entrei em uma das cabines logo atrás da fila de computadores depois de trocar a mais maluca das comunicações com o turco (ou marroquino?) responsável pelo lugar. Minha mãe não estava. que legal. Apelei para minhas frases tipo “não falo francês mas sou esforçada/educada”: “indiquez pour moi a restaurant, svp”. O cara foi até a porta e apontou para um “asian fast food” do outro lado da rua. Acho que quando você não sabe para onde ir, não conhece ninguém, não tem dinheiro para gastar com taxis caríssimos (ou prefere guardá-lo para livros, cervejas e chocolates), não tem namorado para carregar sua mala, sua mãe não está e você não entende lhufas de nada…o melhor é…comer alguma coisa. Pelo menos você terá uma sensação de “preenchimento” indescritível”. (Agora estou bebendo uma “Vedett” extra blond e o copo é diferente. Cada macaco no seu galho e cada cerveja no seu copo!)

Bom, o atendente falava um inglesinho razoável e eu avisei que era vegetarian e ele perguntou o tamanho da minha fome. De regular para large. Ele sugeriu noodles, o que significa um macarrão menos enroladinho que o miojo misturado com meio ovo mexido, raspas de cenoura, uma dúzia de broto de feijão (literalmente) e umas coisinhas verdinhas que preferi não identificar. Era muito macarrão e um pouco de shoyo, não muito. Convém registrar, o prato era grande e custou 6,50 euros. Não sei bem porque mas, foi dar a primeira garfada e começar a chorar. Aliás, eu sei o porquê: faltava sal na comida. Além do mais, vale muito a pena chorar num restaurante vazio onde ninguém te conhece e você não conhece ninguém. Isso, de algum modo, te universaliza.

Sem lágrimas no reservatório e com o estômago cheio pisei novamente na calçada com minha mala de rodinhas. Eu queria colocar créditos no meu “Vodafone sim card”, já que meu “Orange” não se comunicava com os belgas de jeito nenhum. Já pensou meu desespero se eu só tivesse as (deliciosas) cartas como opção? (ou será que não há nenhum desespero nisso?) Quinze minutos depois, cinco euros jogados fora e mais uma aventura comunicacional com o amável barrigudo do que chamaríamos de “mercadinho da esquina” no Brasil e eu continuava “incomunicável” com o mundo. Que mundo, meu deus do céu?!

arranha-céu

(Liguei para meu coração partido.)

Convém registrar que o rapazinho do inglesinho razoável do asian fast food me ajudou a entender as ruelas “bruxelosas” e eu fui andando com o ploc, ploc das rodinhas no meu ouvido e, cinco minutos antes do combinado, eu cheguei na Rue Verhas 11 junto com meu “hospedador”.

Como será que nos reconhecemos sem nunca termos nos visto? Meio óbvio. Eu parada na frente da sua porta com minhas rodinhas e ele descendo das rodas da sua bicicleta, ambos pontuais.

(os bailarinos do The Song estão jantando na mesa ao lado)

Simpático, baixinho e magricela, Adi é um “quirido”, como diriam os amantes de Nossa Senhora do Desterro. Abre a porta da casa do século XIX (reformada em 1994) e carrega minha mala que parece mais pesada que ele, ainda que a dica de ouro do Dauro tenha sido considerada. A casa tem vários andares e eu esperei no térreo, na grande sala com cozinha e quintal,  enquanto ele limpava meu quarto. Esperei feliz da vida, brincando com seus três adoráveis gatos, todos ronronando e me dando atenção. Como diria Garfield, “é difícil ser gostosa, mas alguém tem que ser”, não é mesmo?

frente da casa

Ginger (ciumenta, precisa de atenção só para ela)

Socks (carinhosa, respeitosa, ronrona, ronrona...)

(Clarence não quis ser fotografada, é tímida, super na dela mas MUITO afetiva se você faz contato)

Adi me avisou que o quarto estava pronto. Subimos quatro lances de escada (ele carregou a mala, lógico) até chegarmos no meu agradabilíssimo quarto, com mezanino e tudo o mais. Nada como ser visitante numa “verdadeira” casa belga. Depois de me passar todas as “instruções” (como abrir e fechar a porta) e me perguntar que horas queria meu café da manhã (café ou chá? chá), ele me deixou a vontade para fazer minha bagunça de praxe.

Escovei os dentes e parti em poucos minutos para pegar o trem das três para Antuérpia. Consegui encontrar o caminho, consegui um falante de língua inglesa no ponto e lá fui encontrar o Carlos Garbin, bailarino brasileiro da companhia Rosas!

vista do trem

da janela do trem

mais arranha-céu

estação na Antuérpia (uau)

na frente do teatro

a imagem não tem edição

teatro

pronta para assistir The Song

entrevista com a anne teresa de keersmaeker

The Song

Muitas aspas, reticências, exclamações, interrogações e sem ponto final



CORPOS CUIDADOSAMENTE SELECIONADOS
23/10/2009, 2:25 PM
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(Este texto é proibido para menores de 18 anos. Leitores podem considerar incômodas descrições e imagens aqui contidas)

Vênus de Cera - figura anatômica feita em Florence, 1771-1800, Cortesia do Science Museum, Londres

Vênus de Cera - figura anatômica feita em Florence, 1771-1800, Cortesia do Science Museum, Londres

Um livro grande e corpulento está aberto e mostra uma ilustração com sobreposições. Uma imagem sobre a outra. Você pode abrir o tórax para ver o que tem dentro. “Uma Pesquisa sobre o Microcosmo; ou, A Anatomia de Corpos de Homem e Mulher”, de 1702, é um dos intrigantes materiais disponíveis na exposição Exquisite Bodies or the Curious and Grotesque Story of the Anatomical Model.

 

O nome é muito adequado ao que exibe: exquisite vem do latin exquisitus e sua origem está no século XV. Ex + quaerere = procurar. Também pode ser traduzido como “cuidadosamente selecionado”, “marcado por impecável maestria ou por execução elaborada, ingênua e bela”, “extremo”. Realizada pela excelente Wellcome Collection, uma instituição interessada em debater assuntos ligados a arte-ciência, medicina e saúde, a exposição reuniu inúmeros objetos (pinturas, desenhos, fotografias, livros entre outras peças) e muitas informações para mostrar um pouco da história dos modelos anatômicos e a relação humana com a cura, a morte, a doença, a saúde e a vida. Os objetos são preciosas peças ‘arqueológicas’ e nos contam histórias que vão além delas próprias. Falam de seu contexto, dos entendimentos culturais e científicos em voga, das crenças, dos preconceitos. São objetos curiosíssimos ou apenas para os indubitavelmente curiosos.

imagem da exposição

imagem da exposição

A exposição traçou um apanhado dessa história desde do início com as estranhas obras de arte patrocinados pelo Duque de Tuscany e considerados na sociedade vitoriana como trabalhos imorais e pornográficos. Segundo informações divulgadas pelo evento, no século XIX, a despeito dos melhores esforços dos body snatchers (aqueles que roubavam corpos das covas), a demanda vinda das escolas de medicina por cadáveres frescos estava longe de ser rapidamente atendida. Uma solução para esse repulsivo problema surgiu na forma de modelos de cera que imitavam e representavam os corpos. A mistura, portanto, entre “ciência séria” e “circo dos horrores” revela crenças sobre fragilidade, sexualidade e sobre a “divina arquitetura” existentes nesse mesmo século XIX.

 

Extração da placenta: ilustrando os estágios do nascimento de um bebê (c.1900) Coleção Família Coolen, Antuérpia/Museum Dr Guislain, Ghent, Bélgica

Extração da placenta: ilustrando os estágios do nascimento de um bebê (c.1900) Coleção Família Coolen, Antuérpia/Museum Dr Guislain, Ghent, Bélgica

Museus de modelos anatômicos ficaram populares entre os europeus que procuravam um entretenimento diferente para ocupar as tardes. Em Londres, Paris, Bruxelas e Barcelona, o público poderia aprender sobre as estruturas internas do corpo, seu sistema reprodutivo e sua vulnerabilidade para doenças através de peças dispostas que combinavam ciência com horror. Pagando uma pequena taxa, até pessoas com ganhos escassos poderiam ter acesso a conhecimentos até então restritos aos nobres e aos estudantes da área. Porém, na metade final do século XIX, os museus de anatomia foram acusados de obscenidade e campanhas moralistas provocaram mudanças e as coleções de modelos de cera foram, então, absorvidas em novas esferas do entretenimento: feiras ao ar livre e circos.

Não sei bem o porquê, mas a grandissíssima maioria dos modelos ali expostos (e os que eram produzidos) eram de figuras femininas que podiam ser fragmentadas e despedaçadas em diferentes partes. Muitas réplicas revelam os estágios da gestação humana e do nascimento, o que revela interesse e fascinação enormes pelos mistérios da concepção. Outros modelos eram mais “macabros” e mostravam o corpo com doenças que eram consideradas “sociais”, como a sífilis, a tuberculose, o vício de drogas e bebida.

 

Cabeça mostrando sífilis, c.1900, Coleção Família Coolen

Cabeça mostrando sífilis, c.1900, Coleção Família Coolen

Um dos mais famosos museus de anatomia do século XIX em Londres foi o de Joseph Kahn, que atraiu mais de 200 visitantes por semana no auge de sua popularidade. Kahn, que era médico vindo da Alsace, veio para a cidade em 1851 e estabeleceu seu Museu Anatômico e Patológico no número 315 da Oxford Street. Sua coleção incluía modelos mostrando o desenvolvimento do feto humano, réplicas em tamanho natural do Apollo Belvedere e Vênus de Medici, além de numerosas espécimes ilustrando as “doenças da imprudência” e os “terríveis efeitos do onanismo”. Para complementar os objetos expostos, palestras eram promovidas diariamente sobre assuntos como dieta, embriologia e saúde sexual.

Um poster datado de 1854 anuncia a exibição do novo modelo anatômico “florentine” sob a palavra de ordem “conheça a si mesmo”. Mulheres podiam assistir a demonstração, comandada por Mrs Baker, duas vezes por semana, às terças e sextas, enquanto os homens tinham tinham o direito de escolher entre segunda, quarta e quinta mas com a demonstração do marido da senhora Baker.

 

modelo do engolidor de espada

modelo do engolidor de espada

Entre desenhos, páginas de livros antigos e modelos do corpo humano feitos de cera, você se depara com um engolidor de espada, engolindo a própria, como o tórax e o abdômen abertos para mostrar o trajeto do objeto. É uma espécie de reprodução explicativa com fios atados nas partes do corpo que conectam-se a plaquinhas com o nome do órgão. Performers que eram capazes de passar uma longa peça de metal para dentro do estômago aprenderam a reprimir o reflexo da garganta e a controlar a ânsia de vômito relaxando os músculos no esôfago que não estão, geralmente, sobre o controle voluntário.

 

Mulher Barbada, sem data (c. 1900), Coleção Family Coolen, Antuérpia/Museum Dr Guislain, Ghent, Belgium

Mulher Barbada, sem data (c. 1900), Coleção Família Coolen, Antuérpia/Museu Dr Guislain, Ghent, Bélgica

 

Outras imagens que chamam a atenção são a do bezerro de duas cabeças, a do cyclope, a da mulher barbada, a dos anões e a das irmãs siamêsas. Essas últimas são imaginadas através de uma ilustração e de um recorte de jornal do dia 4 de julho de 1936 que anuncia a morte de uma delas. A outra irmã estava bem de saúde, na ocasião do acontecido, mas muito abalada com o falecimento da companheira, que agora tinha que carregar por onde fosse. Os médicos se preparavam para proceder a cirurgia. Já a exposição da mulher barbada era comum em shows no século XIX e início do XX. Elas, provavelmente, sofriam de uma desordem congênita conhecida como “síndrome do lobisomem”.

Já os cyclopes eram pessoas com um olho só, no meio da testa. Embora raros, muitos bebês cyclopes foram preservados em museus de anatomia. A condição é geralmente fatal.

cyclope

cyclope

A associação entre esses corpos e o teatro de entretenimento é típica. Para H. Fouquier (La Vie Parisienne, Paris, 1887), “o então chamado entretenimento científico é muito frequentemente uma simples desculpa para mostrar às pessoas coisas peculiares que mais propriamente causariam escândalo…Eu prefiro pensar que, para muitos visitantes, homens e mulheres, essas figuras estão meramente lá para nutrir suas fantasias sujas”.

 

Poster da Coleção Roca

Poster da Coleção Roca

Clicando aqui você encontra imagens da exposição que não podiam ser fotografadas. Para ver o vídeo com a curadora Kate Forde clique nesse link. Leitores que compreendem inglês podem checar a matéria do The Guardian e o blog Morbid Anatomy.

irmãs siamesas

irmãs siamesas

 




FUN THEORY
17/10/2009, 10:20 AM
Arquivado em: mexe que eu gosto, porta-treco

Escada de metrô em Estocolmo é transformada em piano.